terça-feira, 31 de dezembro de 2019

VOZES

Recordo as vozes
                    perto

bebida barata
sorriso barato
               farto

vozes enchem a noite
ouvidos poucos
total atenção
        lamento

bebida forte
sorriso farto
         barato

vozes caladas
luzes apagadas
 copos retirados

trôpegos passos
e a voz pastosa
  repete o canto.

(Pedro Du Bois, inédito)

meiotom poesia&prosa

Segredos, em:
http://www.meiotom.art.br/dupo19segredos.html

Sorrateiro, em:
http://www.meiotom.art.br/dupo19sorrateiro.html

domingo, 29 de dezembro de 2019

ECO

Não há eco no passado
reverberações quem sabe

o som desloca ares
desmancha montanhas
sepulta histórias

arqueólogo preocupados
devassam a memória

levam ao museu
a cabalística prova
do amor sepultado.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

PRESUMIR

A presunção identifica
os erros cometidos
ao julgar o próximo
com os conceitos
que carregamos

a presunção indica o erro
por não considerarmos

temos o culpado
e basta.

(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

CAIXAS

Ficamos extasiados
diante da caixa fechada

toda caixa fechada
traduz nossa ansiedade
traz a desconfiança
para a consciência

nenhuma caixa
é apenas uma caixa
será uma caixa apenas
depois de ser aberta

enquanto fechada é imã
que nos trai e nos leva
por caminhos imaginários.

(Pedro Du Bois, inédito)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

ÂMBAR

Nós
conservados
- âmbar planeta
aqui presos
para sempre

viscosos seres
eternizados

em que nos repetimos
e nos transformamos

desconhecidos
em sucessivas
gerações.

(Pedro Du Bois, inédito)


sábado, 21 de dezembro de 2019

PRESENÇA

Senhor estou presente
para o que fui chamado
a prestar este serviço
servil
meu senhor
espreito
espio
aguardo
suas ordens
rápidos boletins
a tinta suja a folha
a mão suja a falha
a voz ordena antigas
cantigas populares

estou presente senhor
presença marcada
rápida passagem
sobre o campo
avança a praga
a pressa
a presa escapa
senhor.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

UNS E OUTROS

Uns retratam seus povos
        outros os escondem
uns descrevem seus povos
             outros os sonegam
uns cantam seus povos
            outros os calam
uns contam seus povos
         outros os mentem

uns prometem aos seus povos
                outros não cumprem.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Arcanos Grávidos

trechos de poemas, em:
https://arcanosgravidos.blogspot.com/2019/12/dois-trechos-da-escrita-de-pedro-du-bois.html

Modus vivendi

Sorrateiro, em:
http://amata.anaroque.com/arquivo/2019/12/sorrateiro

REIS e PRÍNCIPES

Seriam os reis os primeiros
afinal
seriam reis
            reais interesses

real sobraria a pose
                  e o porte

(não o porte de armas
                    nada real)

reis seriam os primeiros
a serem desarmados
e deixariam os uniformes
casacas
condecorações

(rainhas deixariam os chapéus)

plebeus todos e novamente
esperaríamos no horizonte
surgir o próximo príncipe
cavaleiro.

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 15 de dezembro de 2019

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

BILHETE

Fria alma desdenhada rabiscos
ilegíveis rasurados papéis
sob a porta prova  de amor
perdidamente amor paixão
e dor onde o coração bate
olhos baixos - sempre baixos
os olhos - ao passar cruzar
atravessar caminhos ravinas
pavimentadas poeiras outros
pés descalços encalço procura
busca a mão do abismo alívio
no toque resposta não chegada
partida partido coração
envergonhado em palavras
canções desencantadas
vozes altas baixos olhos
braços pendentes dentes
serrilham a boca na ausência.

(Pedro Du Bois, inédito)


quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

DESTINO

Não tive melhor destino
preso em mim
          pelo tempo
          pela farsa
          por tantas frases
ditas na hora errada
em que verbos fáceis
e adjetivos correntes
traziam na idade
a esperança futura

fechado enclausurado
acorrentado em medos
perdi o vento que transporta
a idade e adultera os atos
na mesquinhez dos retratos
de imagens desgastadas
na rapidez da pose: falsidade
com que me colocava ao lado.

(Pedro Du Bois, inédito)


segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

CULTURA

Do recado
sombra no regaço
regato
de águas claras
e limpas

da mensagem
luz na palavra
verbo
de transitivo fim
e limpo

das sobras após o ataque
no barbarismo praticado
pelos de sempre
e sujos

do que ouvi dos passos
no grito com que o corpo
foi atingido
e sujo.

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 7 de dezembro de 2019

CONDICIONANTES

Seria o último
a encontrar a resposta
certa sobre os aspectos
principais do que procurava

seria a última
visão do todo
resgatado nos fragmentos
trazidos pelo vendo

seria o último
estertor do pensamento
crítico sobre o começo
em relação ao firmamento

seria a última
esperança sobre a vida
ressurgida na claridade
em cegados olhos.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

REPRESENTAÇÃO

Após o espetáculo
entra pelos fundos
         palco escuro
         plateia vazia
         escuros camarins

reacende as luzes
inicia o trabalho
desfaz a sujeira
               limpa
               varre
               lava
               espana
     passa o pano

no palco
      para
        (glória)
 olha a plateia
              vazia

curva o corpo
em agradecimento.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

MONSTROS

E os outros monstros
pergunta a menina?

Nenhum virá me
fazer companhia?

Algum deles
brincará comigo?

Nem a bruxa
nem a princesa
nem o monstro-sem-cabeça?

Esses monstros são fracos.
Não assustam a menina
que precisa de monstros
fortes para suas emoções.

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 1 de dezembro de 2019

meiotom poesia&prosa

Pior cego, em:
http://www.meiotom.art.br/dupo19cego.html

Revista Cerrado Cultural

Segredos, em:
https://revistacerradocultural.blogspot.com/2019/12/segredos.html

Pior Cego, em:
https://revistacerradocultural.blogspot.com/2019/12/pior-cego.html

TriploV

Segredos, em:
http://triplov.com/segredos/

Modus vivendi

Segredos, em:
http://amata.anaroque.com/arquivo/2019/12/segredos

CONHECER E TER

Conheceu o sucesso conheceu o progresso
teve o fracasso teve o regresso
conheceu o amanhã conheceu o futuro
teve o ontem teve o passado
conheceu o amor conheceu a paixão
teve o desamor teve o ódio
conheceu a noite conheceu a vida
teve o dia teve a morte
conheceu a amizade conheceu a bondade
teve a inimizade teve a maldade
conheceu o horizonte conheceu a liberdade
teve o muro teve a prisão
conheceu o destino conheceu o caminho
teve o desatino teve o descaminho
conheceu você conheceu você
teve o que foi seu teve o que foi dela.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

IMPORTÂNCIA

Penso na importância
dada aos fatos
(agora) irrelevantes

lembrados momentos
decisivos: risíveis
                   agora

- água turva da sujeira
  entornada ao poço -

restada importância
pela mediocridade
na vida diária
das miudezas
que dão sentido.

(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

REIS

Aos reis os palácios
cabem como luvas
em dedos frágeis

loucos somos nós
que nos contraímos
pelas esquinas
como reféns
dos carros
que passam

dentro dos carros
os reis e as luvas
- seus palácios

o sinal em vermelho
faz parar os carros
e os reis escondem
seus rostos

o refém deixa a esquina
                    e atravessa.

(Pedro Du Bois, inédito)

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

REAPRESENTAÇÕES

Tudo o mais
transformado
em (in)verdades

poucos recursos cênicos
parcas mágicas
indigentes palavras

a mentira representa
a (sua) verdade
       a que estamos
         acostumados.

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 23 de novembro de 2019

FUNERAL

Esses olhos
           viram a continuidade
           em avessa
           dança estática
           na imobilidade aérea

esses olhos
          veem o começo
          no que lembram
          do espaço imenso
          fechado em ares

                  esses olhos
          nada mais verão
       na reversa história
recontada em pedaços.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

DIÁRIO


De todos os espíritos a luz concedida aos poucos
anima as sombras entre árvores Parreira frutificada
Novos líquidos Sensações indizíveis Saudações
Por tudo que for tomado o território será o trunfo
maior por sua inteireza pela cobiça dos vizinhos
pelas mulheres dos homens que foram embora
para as guerras Líquido encorpado no que ocupa
a cama Espírito redivivo das conquistas Honras
Ao guerreiro a vitória interessa Prêmio Castigo
Castigada mente em questões menores O espírito
ilumina o corpo presente na reprodução A bebida 
transborda o cálice Corpos embriagados de maridos 
traídos Foram para a guerra defender suas pátrias
A ressaca adoece os olhos Morte Suas mulheres
nas batalhas diárias Filhos secos Parreiras.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 19 de novembro de 2019

NOVO

Traz o novo na fragmentação
                                 do velho
                   na demonstração
                              do pecado
                   na transfiguração
                             do repetido
                   no deslocamento
                                  do justo
                        na delicadeza
                             do detalhe
                              na junção
                          dos opostos
               no criminoso choro
      com os olhos de sempre

           não é novo quem traz
              o velho desfigurado.

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 17 de novembro de 2019

SOBRA

Não está aqui
local vazio de sombras
representantes do atraso

a pira arde o óleo
e o pano bandeira
de novos tempos

(sombras por onde andam?)

não estão aqui
sombras sem locais
câmaras frias de flores congeladas

amores a serem encontrados
consomem o óleo e o pano
tornam rotas as bandeiras
no esconder a sombra
no que sobra: amizade.

(Pedro Du Bois, inédito)

               

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

UTILITARISMO

Caminho percorrido

mentalmente reabro
a caixa de brinquedos

longínqua infância
revivida

embrulhado em papel de seda
escondido em papel jornal
no que sobrou do saco de pipocas

o novo

esquecido desde o começo.

(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

CRIME

Com o pedaço de papel
limpa cuidadosamente
o sangue no assento

acende o fósforo
queima o papel
ensanguentado

junta as cinzas
sobre outra folha
imaculada de papel

mistura as cinzas ao leite
- mistura bem as cinzas ao leite

bebe devagar o conteúdo
do copo - sem pressa -
na última refeição do dia

a primeira da nova vida
na culpa que acompanhará
seu corpo e mente.

(Pedro Du Bois, inédito)

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

ULTRAPASSAGEM



Sou quem me ultrapasso
tinha você pelo braço
no perdido corpo
de outros abraços
ultrapassados

ciente do destino no sinal fugidio
avanço e retorno e falo ao guarda:

   não há outro caminho 
   na espera da atropelada hora 

sou quem me ultrapasso
e exausto repouso o corpo
na soleira que acolhe e esconde
o cansaço em que me encontro

silenciosamente escorrego os pés e o barro
marca a passagem ultrapassada no medo
trazido de casa: hoje é meu dia de passar.

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 9 de novembro de 2019

BEIJO



O beijo na falsa imagem
dos sonhos sobre a mesa
em negociação barata

pedras e pedras jogadas 
no rio impedem a passagem

a barragem o barco e as pedras
trancam a vida em paisagens
aquáticas de espíritos afogados

eternizados deuses desesperados
buscam suas redentoras mortes
de poucos anos e promessas

forçam pedras em avalanches
capazes de ruírem muros
e reintegrarem águas à paisagem

no beijo da amada: molhados lábios
em sua boca na sensação das águas
em que a vida segue o espaço.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Navegar é Preciso - Tânia Du Bois


Du Bois sobre Leminski, em:
https://books.google.com.br/books?id=dFsrAwAAQBAJ&pg=PA59&lpg=PA59&dq=%22Pedro+Du+Bois%22&source=bl&ots=siQD4vzFqP&sig=ACfU3U2b_V9_WUXIQ8zumhUacT9HNATVYg&hl=pt-BR&sa=X&ved=2ahUKEwiOgonUx9nlAhXfGLkGHcQrBqM4PBDoATABegQICRAB#v=onepage&q=%22Pedro%20Du%20Bois%22&f=false

TERRAS


até aqui o país geográfico
em terras de donos infindáveis
no nada arado e o gado ausente
das decisões em cartórios

depois outro país geográfico
de linguajar diferente
e costumes acostumados
em terras que não pertencem
deixadas para os parentes

além da geografia a terra
que tem outros donos
proprietários multiplicados
de fronteiras em que soldados
perseguem prendem e matam

além de tudo não há nada
que possa ser desocupado.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 5 de novembro de 2019

PASSEIOS


dias passeiam entre músicas
cantores embalam insetos
em esvoaçantes ventiladores

o coro repete o refrão
a piedade refaz a oração
em solteiras intenções

tardes recolhidas no desfazer
a comida e lavar a louça
descansado das loucas noites
anunciadas em gritos

o copo vazio de ontem
iguala as apresentações
bisonhas de arcos e flechas
que ferem secos amuletos

dias pensados em músicas
na tarde em atrasos.

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 3 de novembro de 2019

NOITE



Na noite repleta de escuros cantos
a luz espanta os corpos que se encontram
em conversas antigas de muitos anos

lances sorrateiros e o apito do guarda
que o medo retira a vontade
de serem encontrados
no irrealizado verão
de luzes e noites quentes

fossem escuros cantos
onde continuassem anônimos
e o vento levasse os papéis

não seria a noite o receptáculo
de legumes e verduras chegados
à mesa de quem dorme

não se fazem negócios enquanto a noite
esconde os clarões humanos: agenciada
em vidas e mortes descoloridas.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

ALÉM


Além: no relógio estático na parede
o som mostra a sala na passagem
do tempo em renovadas vidas

mortes disfarçadas no esquecimento
sem as badaladas e o tique-taque
nos passos amiudados: na refrega
esfrega o que o armário guarda

sob a mesa repousa os pés 
do andar continuado em anos

aguarda a chegada das conquistas
e o perdão estendido viaja e retorna
grudado ao corpo e nos olhos baços
de quem pouco escuta do exterior

os sinais do relógio estratificam o quando
terminado em vozes na oração de sempre.

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 27 de outubro de 2019

DEPOIS

Retirarão a pintura
descolorindo
o por do sol

morros acinzentados
em verdes desbotados

silencioso
sem sapatos
ficarei à janela
para ver o dia
ir embora

não um
ou outro dia:

sensação
de que a noite
sem estrelas
se eternizará.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

INIMIGO

Porque se fizeram inimigos
não terão meu afeto
nem minha indiferença

não cantarei minhas músicas
nem lerei seus textos
não comerão da minha comida
nem me terão em regresso

não estarão comigo
nem me terão por perto

não me verão na amurada da ponte
nem serei a companhia na travessia

porque se fizeram inimigos
terão meu esquecimento
em meu silêncio.

(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

COMPROMISSO


Meu compromisso
presente em gotas
no amanhecer

frio compromisso
com gelos pendentes
em queimadas gramas

(no entanto)
estou ciente
da promessa
              feita
  em lágrimas
  não orvalhadas
  na fria madrugada

água nos olhos
escorrida pelo rosto
triste e compenetrado
                apaixonado.

(Pedro Du Bois, inédito)


segunda-feira, 21 de outubro de 2019

TARDIAMENTE

Tarde demais para perceber
que a construção fecha a paisagem
         e sonhos se restringem à janelas
            abertas na passagem dos corpos
            que invadem o ambiente na escuridão
que a noite aproxima os corpos
       caídos na cama em embaraços
       de tediosas horas em que sonhos
       fecham os olhos para a realidade

vida vista com atraso burocrático
vias extras para as reclamatórias

que o barulho da construção: pás e picaretas
       pedreiros eletricistas hidráulicos corações
       acompanham o andamento das obras
       tardiamente com as paredes erguidas.

(Pedro Du Bois, inédito)


sábado, 19 de outubro de 2019

REVIVER

No fundo do poço seco de antes águas
descia a caçamba na corda suspensa
voltando com a água de todo dia

brota a planta na nesga da boca
recomeçada vida depois de seco
o velho poço diriam todos
os que votaram o aterramento

tijolos e cimento rodeiam
paredes na falsa noção da espiral
e bichos peçonhentos subindo
e descendo na multiplicação
da vida no mesmo buraco

no escuro do fundo do poço
seco de águas passadas
nem corda e caçamba
nem a imagem refletida

a vida renova o espaço
na umidade exalada
pelo broto da planta
agora sepultada.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

SILÊNCIO

Largo corredor com lâmpadas acesas:
    caminha o trajeto em passos lentos
largo e lento corredor caminhado
    não completar
    não chegar
ficar junto à janela
até apagarem as luzes

os olhos se acostumam na escuridão:
     distingue no branco da cena
     o medo na mão que treme
     o vazio do espaço encoberto
pela vidraça a janela mostra
o mundo em seu lado de fora

ficar até cessar o mundo
através do vidro embaçado:
   o dentro e o fora completados
                                 em silêncio.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 15 de outubro de 2019

URBANIZAÇÃO

Campesino urbanizado
pela força tecnológica

triste pessoa busca o passado
               em ruas inexistentes

antes estradas oferecessem
caminhos diversos
                 opções de transporte
    trouxessem a mesma direção

fosse a urbe o destino correto
na chegada precedida por arautos

mesa farta e cadeiras confortáveis
nem em sonhos a vida se apresenta

o campesino não é mais campesino
seu campo agora é outro continente
e a luz parca da chegada
                      foi apagada.

(Pedro Du Bois, inédito)

TriploV Blog

Amores, em:
https://otriplovblog.wordpress.com/2019/10/15/poema-47/

Modus vivendi

Amores, em:
http://amata.anaroque.com/arquivo/2019/10/amores_2

domingo, 13 de outubro de 2019

CUMPRIMENTOS

Golpes
desgovernam
estados
estratificados

revoluções
reiniciam
estados
em outros
princípios

democraticamente
sistemas políticos
barganham votos

no final da fila
nós sempre
esperamos.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

CONFINS

          Confinados
      neste planeta
      não errante

            de horas repetidas
      em estações repetidas
          com ciclos repetidos
             dos dias bissextos

 conseguimos ficar
      afastados
            hostis
desconfiados
  beligerantes

a morte vence a razão
e corpos são decompostos
em poucas lágrimas.

(Pedro Du Bois, inédito)   

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

DIA ANTERIOR

O dia anterior
           (exílio)
esconde a memória
antes que seja apagada

a força
escurece o horizonte
e em branco e preto
avista o último lampejo

a hora some em nuvens
sem raios e relâmpagos
no dia anterior que antecede
a lembrança sobre os atos.

(Pedro Du Bois, inédito)


segunda-feira, 7 de outubro de 2019

ROTINA

Na passagem
o estreito caminho
de todos os dias

obstaculizado
na mediocridade
rotineira

no chuveiro com água quente
lava o cheiro do escritório
apaga o que a mente
trouxe de fora

fechados caminhos revistos
em cada ação decretada

pouco de amor e carinho
após encerrado o jantar.

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 5 de outubro de 2019

ANTES

Um dia antes
deixarei o corpo descansar
na cama até a última hora
antes do banho farei a barba
usarei a melhor roupa

um dia antes
acordarei mais tarde
antes de levantar ficarei
com os olhos fechados

um dia antes
saberei chegar a hora da despedida
não estenderei a mão nem trocarei beijos
de longe acenarei aos transeuntes

um dia antes
ficarei estático na casa
até que o nada consuma em mim
o pouco que restará da passagem.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

ESTRELAS

Os que virão após
estrelas novas
não nos trarão reforços
estrelas vazias
não nos trarão novas
estrelas escuras
não nos trarão notícias
estrelas ocas
não nos trarão vidas
estrelas mortas

os que virão depois
não nos trarão amor
estrelas frias

e sumirão nas luzes
dos primeiros sóis.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 1 de outubro de 2019

FERAS

Meço a distância que me separa da fera
que sabe no distanciamento o medo
do que nos separa naquela hora

vou ao seu encontro e a fera recua
no primeiro instante: seu instinto
a faz recuperar a postura ferina
com que seus olhos brincam
em dentes brancos quando
o corpo ágil arremete
ao meu encontro

sei da sua força
                agilidade
                 malícia
e do impacto do seu corpo
sobre a minha queda

seus dentes na minha carne
e suas garras dilaceram

não há distância entre a fera e eu
somos aos mesmo tempo único corpo
no chão rolado em sujeira e sangue

a fera me abestalha quando a humanizo
e com meu corpo estraçalhado assumo
seus olhos e são meus seus dentes

permaneço na fera em segunda pele
ela se debate querendo se livrar
do incômodo hóspede que a assume
com corpo e alma humanizados: duas
                 feras abestalhadas e soltas.

(Pedro Du Bois, inédito)



Revista Cerrado Cultural

Ventos, em:
https://revistacerradocultural.blogspot.com/2019/10/ventos.html

Traição, em:
https://revistacerradocultural.blogspot.com/2019/10/traicao.html

Modus vivendi

Ventos, em:
http://amata.anaroque.com/arquivo/2019/10/ventos

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

A Revelação como Máscara e outros poemas


por W. J. Solha


Sobre A REVELAÇÃO COMO MÁSCARA, do novo livro de Pedro Du Bois, O VENDEDOR DE CADEIRAS, publicado pelo Projeto Passo Fundo. 






A ilustração é um quadro meu, de que me lembrei ao ler isto, nessa parte da obra:
-
Gosto de usar na máscara o irrefletido:
a opacidade anteposta ao papel
desenhado no esboço e o gesso
na morbidez do rosto
condenado à decomposição.
-
OK.
Há anos acompanho a produção de Du Bois. E esta me parece banquete pra psicólogos, psicanalistas, psiquiatras e assemelhados, e pra críticos literários de melhor estirpe. Uma de minhas resenhas sobre obras anteriores do poeta gaúcho, teve – a propósito - o nome de ENIGMA DU BOIS, aqui bem mais denso, até, do que o ENTRE MOSCAS, do Everardo Norões, por que, na maioria das vezes, venceu-me. Como se fossem partes de um nouveau roman – que tinha foco nos objetos, não nos personagens – os três primeiros títulos desta edição constam como “O Vendedor de CADEIRAS”, “A Revelação como MÁSCARA”, “TUBO DENTIFRÍCIO”.
Veja que sacada:
-
Ao velarem os mortos
colocam cadeiras
junto ao caixão:
-
Corpos assentados
inclinam as mãos
sobre as bordas
os olhos choram o corpo
deitado
-
Nas outras partes do livro, tem-se achados como este:
-
TUBO DENTIFRÍCIO
-
Aprendo a escovar os dentes
antes que o almoço
me devore.
-
Mais em frente:
LEVIANA HISTÓRIA DE UM SE NHOR URBANO
-
Sonha em se tornar artista
sobre o fogo: retirar do coelho a ironia
da cartola.
-
E, como se – malevolamente – gozasse com meu novo livro – VIDA ABERTA
(Tratado Poético-Filosófico ):
-
Entediado. O filósofo repete
em novas palavras a sua velhice.
-
E:
-
Simplifica em termos
eternizados o que não foi
dito.
-
OK.
Mas o centro do volume, parece-me, é a REVELAÇÃO COMO MÁSCARA, em que a gente pensa logo na fábula de Esopo, “A Raposa e a Máscara Trágica”, em que a zorra dá com esse assessório do teatro grego, deslumbra-se com sua beleza, mas se decepciona com o vazio atrás dela. Em seguida vamos direto à Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, ao Arquétipo Persona, onde se observa o sujeito com a possibilidade ou necessidade de criar personagens ( persona: máscara, em latim ) que podem não ter nada com ele mesmo: o papel público que o ser humano se sente forçado a apresentar.
Du Bois não é um poeta exatamente feliz com a condição humana, com as tais máscaras ou não:
-
Nem o vazio
Se revela. Nem a revelação se esvazia.
-
Ou:
-
Escondo a máscara sob outra máscara
-
E isto que se segue vai pra uma tácita angústia kafkiana , como em O PROCESSO:
-
Sobre a minha vida despejam culpas assumidas
em lágrimas de arrependimento. Não me dizem
o crime cometido.

-
OK, de novo. Porque triste, mesmo, são estes versos de SILENCIAR:
Dias (são assim)
calados em tardios
anoiteceres. 

-
Como eu disse, não se trata de prato cheio, mas de banquete para os estudiosos da mente humana, inclusive críticos literários do porte de um Hildeberto Barbosa Filho.
Fica a indicação.


domingo, 29 de setembro de 2019

VIAGENS

Levamos nossas vidas mesquinhas
perambulamos nossos fantasmas

esquinas repetem
a sucessão do passado
em que as curvas escondem
o futuro em novas paisagens


estamos
encaramujados.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

MUDANÇAS

A mudança acompanha
a história: nada e glória

decadente companheira
na jornada que medeia
(já) sem entusiasmo

a metamorfose
completada nas asas
libertadas ao sol
que ilude a tarde

na decadência o retorno
com cabelos revoltos
de antigas ventanias

as mãos afastam
as tempestades
em que se transforma.

(Pedro Du Bois, inédito)


quarta-feira, 25 de setembro de 2019

HERÓIS

O horror da guerra recontado
na mesa do bar: bravatas
e homéricas pilhérias

braço sobre o encosto
aproxima o corpo
e no ouvido estala
a língua o tiro de canhão

fuzila com os olhos o comentário
atrevido e revida o ataque
com perfídia: emudece
a plateia na simulação
do estampido

o braço aperta o corpo
ao lado: fosse o inimigo
subjugado no golpe
em que a lâmina rasga
o pescoço repassado
com experiência e glória

detém o amigo que se despede
ao ir embora: sugere nova
rodada mesmo que em outro
local: ainda é hora

sozinho
o desalento invade
seu corpo e alma: os olhos
tentam apagar o passado.

(Pedro Du Bois, inédito)


                   

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

FERIDA

A ferida sangra o corpo atingido
o sangue escorre o passado
esconde a mágoa do amor findo
no amoroso corpo desprezado

a ferida sangra a dor recolhida
o sangue corre na veia atingida
escolhe a raiva no amor atraiçoado
em amoroso sentido vilipendiado

a ferida sangra o espírito refletido
o sangue recorda o louco estampido
recolhe o amor no corpo abandonado
em amoroso recorte rasgado.

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 21 de setembro de 2019

DESFRUTE

Em desconexo sentido
a figura sem concretude
sobe pela parede
foge em desconcerto

traz o mundo no jornal
cortado e colado ao solo
na delimitação do espaço

despertada angústia
na figura desconsertada
que se rebela ao espaço
em canções aventuradas

despudorado futuro
rarefeito em desculpas.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

DESCOBERTA

De outras terras disseram os aventureiros
descreveram paisagens
           disseram dos nativos
           insinuaram o ouro
                           e a prata
                           que poderiam encontrar

trouxeram selvícolas para agradar a corte
trouxeram o tabaco a ser fumado
trouxeram o cacau a ser torrado

não trouxeram doenças que lá não havia
não trouxeram ratos que lá não existiam
não trouxeram sonhos que lá não sonhavam

levaram as doenças os ratos os sonhos
conquistaram: tornaram-se senhores
exterminaram os povos
       exauriram os metais
       chamaram de novo mundo.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 17 de setembro de 2019

ILHA

Mística ilha
onde mantenho
               meu passado
               meu degredo
               meus segredos
               meus instantes

isolados
incólumes
desterrados

submerso futuro emerge na onda
em que afogo as lembranças

o mistério escorre
outras águas.

(Pedro Du Bois, inédito)


domingo, 15 de setembro de 2019

INCENSADO

Queima o incenso na sala
em conversas de pouco dinheiro
e exames médicos: horror do herpes
e suas sequelas. Danada doença
que o incenso queima
                        tosse
                        afoga
                        as mágoas
em instrumentalizadas
músicas. Não fala do cansaço
nem do casamento incerto
de errados tempos incensados
enquanto escurecem vidas
e na televisão preparam
o noticiário. Lembra
o cronista e suas palavras
ecoam sem respostas.
O aroma do incenso
na mesa e a mesa
posta. Aposta o jogo
em seu resultado
que não altera
a história: apenas
a repetição de campeonatos
anteriores e do que o médico
disse na consulta passada.
O incenso termina de queimar
e a conversa morre na sala.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

DIAS POÉTICOS

O poeta troca a nau
pelo carro com que parte
para o nada como se fosse
a nova odisseia em paradas
de programadas baldeações
ou troca de sua nave

o carro circula estradas
em autovias sinalizadas
- onde a placa do labirinto? -
de faixas aéreas pré-determinadas
em que o gps marca a posição
exata de sua perdição terrestre

o policial solícito diz da próxima estrada
o agente turístico - sorridente - diz do hotel
aproximado e o poeta cansado pede
que alguém carregue a sua bagagem
e solícito
e sorridente
entrega ao carregador a pequena nota
vil e financeira de sua última rima
versada antes do banho.

(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

CIVILIZATÓRIO

A água pura
não era escura
como agora
na civilização

o floresta pura
era escura
antes de chegar
a civilização

a mente humana
clara e escura
carrega consigo
a civilização

a civilização
em lusco-fusco
é fogueira
sem imaginação.

(Pedro Du Bois, inédito)



segunda-feira, 9 de setembro de 2019

DEMÔNIO

 Ah o demônio
rubros olhos
traduzem
a maldade
   inveja
   ruindade
 
   vontade ocultada
   de nos travestirmos
   e sermos a ameaça
   que impõe o medo
   e expressa a raiva

quem escreve textos
sobre o bem eterno
em respeito pelos seres
na inteireza do lucro.

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 7 de setembro de 2019

TOLOS

Tolo
são tolos
os sentimentos
expressados
onde não existe
receptividade

tolo
somos tolos
sentimentais
apressados
querendo a seiva
de seco tronco

tolo
sentimentalismo
impresso
em páginas e páginas
de velhas palavras.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

NÃO

Não há a minha casa
há a casa onde moro
não há a minha riqueza
há certa riqueza que exploro
não há a minha beleza
há a beleza que transformo
não há a minha vida
há a vida em que transito

levo a saudade
       o conhecimento
    e o choro: a casa
esquecida em dias
de outras belezas

desconheço a minha força
busco o recomeço: rememoro.

(Pedro Du Bois, inédito)
                         

terça-feira, 3 de setembro de 2019

A VIDA

A vida teimosa
se apresenta
em fogos
e artefatos

artifícios
que a sustentam
em tolos corpos
que se escondem

a vida teimosa
se faz presente
quando a noite
acontece

vela
pela aurora
que refaz o dia

a vida teimosa
entontece a morte.

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 31 de agosto de 2019

HISTÓRIA

Aqueles antigos personagens
passaram pela história
que nos contam

nós jovens
nem história temos
para contar

(com que autoridade
 comandaremos o futuro?)

esses velhos personagens
da história: anteriores passagens
                   antigas verdades
                   em que a autoridade
flui do conhecimento por estarem
presentes ao acontecido

mesmo que agora
esquecidos nada mais
possam nos transmitir.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

FINAL

Alegava a sorte
madrasta
dizia do futuro
infortúnio
orava no sucesso
o medo do fracasso
chorava o que havia
passado

choro de desconexa
carpideira no ensaio
como as promessas

cantava o azar
nas pedras
murmurava segredos
nas pétalas
gritava o silêncio
na última hora.

(Pedro Du Bois, inédito)


Modus vivendi

Das Verdades, em:http://amata.anaroque.com/arquivo/2019/08/das_verdades

terça-feira, 27 de agosto de 2019

NEGÓCIOS

Não falam na sina do demônio
obrigado eternamente a negociar
com abjetos humanos loucos
para trocarem suas vidas
por alguns prazeres

o demônio sabe da factualidade
dos negócios: entende a efemeridade
dos prazeres: compreende o que terá
de volta no curto prazo

tudo lhe causa asco: o negócio em si
onde se apresenta quando chamado
: o livre arbítrio na grave omissão
da autoridade: a sem-vergonhice
que os obrigará para sempre

sempre chamado a negociar
almas penadas que nada
acrescentam à morte.

(Pedro Du Bois, inédito)

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

A ARS POETICA em MÁRCIO ALMEIDA


infelizmente o dizer não se coaduna
com as ações: basta-lhe a expectativa
de algo a acontecer. dizer é simpática
ideia recorrida antes do decurso
mesmo sem haver prazo para
conclusão. fosse a leitura
vesânica do mestre
márcio almeida
grafada em maiúsculas
que aqui se transforma
não por menoridade
ou inferioridade
ou desdita
ou desdizer
ou apenas
por querer lhe fazer as honras
pelas histórias (ainda) descontadas
fossem cheques voadores antigamente
utilizados para saques e pagamentos

dizer absurda o ser que se entretém
em negaças e fogos artificializados
como lareira cinematográfica
sem a necessidade de lenha
- decorativa – e fumaça
de olfato e lágrimas
mas o texto consentâneo
a tecer entretextos
sem a necessidade
de entrelinhas
e mazelas

vesânia ativa minha sensação
de perda no trabalho realizado
para a satisfação do patrão
mesmo sendo estado
e fisicamente estável
em promoções e salários
de hoje para amanhã

mas o autor sem qualquer vesânia
sabe – soube – bem traduzir o esvaziado
oco do santo em madeira carcomida
ao se referir ao entrópico acordo
a que nos referimos em almoços


porca miseria diriam uns e outros
advindos em busca de salvaguardas
que a misericórdia não transita
vales e morros e planícies
em botas e portaluppis

mestre almeida ao anunciar
o caos estremado em tantos
dizeres faz o dever de casa
sem que a casa deva impostos
e aluguéis: quem retorna sabe
do sacrifício em ter saído
que sair é transtornar o mito
e voltar atomiza o rito
sem passagem

des(d)enhar no signo
a verbalização em função
leitora na dessemelhança
cartograficamente poética
que deserda originalmente
na metragem angelical
da loucura que nos vigia
e assombra médicos
e enfermeiros assemelhados
no transitar cotidiano
antes da fama encenada
pelo fluxo desdobrado
no nome de quem
(ainda) vive o saber
conceituado ao ultraje
siliconadamente
significado na lógica
dos jogos e lúdicas
criações das verdades
que nos atravessam
pelo receio de sermos
- talvez – quem se vê
aurora obscura
em diálogos que teimam
o imaginário em que nos realizamos.

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 25 de agosto de 2019

NADA

Rostos
dedos
voltados para o alto

não há acusação no gesto
                            nos olhos
        em angustiada espera

sérios semblantes
                       ricto
        olhos abertos

nada oferecem
em troca

não há quem se toque
não há qualquer toque

rostos
dedos
olhos cansados
retornam em esvaziada
cena que se encerra.

(Pedro Du Bois, inédito)


quarta-feira, 21 de agosto de 2019

DORES

Dor da mãe
       filho na guerra
esquecida infância
       brincadeiras
esquecida adolescência
       puberdade
esquecer que houve o sorriso
        triste esgar
                 agora

dor da mãe
        filho na terra
esquecida infâmia
         bebedeiras
esquecido passado
          amarrotado
esquecer que houve o filho
          triste lembrança
                          agora

dor da mãe
           filho da época
esquecido infante
           sorrateiro
esquecido homem
           transformado
esquecer que houve a esperança
           triste passado
                        agora.

(Pedro Du Bois, inédito)

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

ANTIGOS

Anteriores deuses
   cerimoniosas figuras
   impávidas sobre montes
   descobriam as cidades
   de perdidas ruas
   sem fim e futuro

estradas: trajetos curtos
onde homens e mitos
se encontraram na primeira
volta do rio sem pontes

na porta o símbolo do medo
pela não realização na imagem

na desfaçatez do sonho o sono
pesado do escriba: mão calosa
fosse agricultor que na terra
cede à sede argentária

luas passadas
caminhantes perdidos
            ao irem embora
            confiando palavras

divindades caladas
                     mudas: confinadas
                     e confiantes na força
da forca: forcado restante ao corpo.

(Pedro Du Bois, inédito)