domingo, 17 de novembro de 2019

SOBRA

Não está aqui
local vazio de sombras
representantes do atraso

a pira arde o óleo
e o pano bandeira
de novos tempos

(sombras por onde andam?)

não estão aqui
sombras sem locais
câmaras frias de flores congeladas

amores a serem encontrados
consomem o óleo e o pano
tornam rotas as bandeiras
no esconder a sombra
no que sobra: amizade.

(Pedro Du Bois, inédito)

               

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

UTILITARISMO

Caminho percorrido

mentalmente reabro
a caixa de brinquedos

longínqua infância
revivida

embrulhado em papel de seda
escondido em papel jornal
no que sobrou do saco de pipocas

o novo

esquecido desde o começo.

(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

CRIME

Com o pedaço de papel
limpa cuidadosamente
o sangue no assento

acende o fósforo
queima o papel
ensanguentado

junta as cinzas
sobre outra folha
imaculada de papel

mistura as cinzas ao leite
- mistura bem as cinzas ao leite

bebe devagar o conteúdo
do copo - sem pressa -
na última refeição do dia

a primeira da nova vida
na culpa que acompanhará
seu corpo e mente.

(Pedro Du Bois, inédito)

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

ULTRAPASSAGEM



Sou quem me ultrapasso
tinha você pelo braço
no perdido corpo
de outros abraços
ultrapassados

ciente do destino no sinal fugidio
avanço e retorno e falo ao guarda:

   não há outro caminho 
   na espera da atropelada hora 

sou quem me ultrapasso
e exausto repouso o corpo
na soleira que acolhe e esconde
o cansaço em que me encontro

silenciosamente escorrego os pés e o barro
marca a passagem ultrapassada no medo
trazido de casa: hoje é meu dia de passar.

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 9 de novembro de 2019

BEIJO



O beijo na falsa imagem
dos sonhos sobre a mesa
em negociação barata

pedras e pedras jogadas 
no rio impedem a passagem

a barragem o barco e as pedras
trancam a vida em paisagens
aquáticas de espíritos afogados

eternizados deuses desesperados
buscam suas redentoras mortes
de poucos anos e promessas

forçam pedras em avalanches
capazes de ruírem muros
e reintegrarem águas à paisagem

no beijo da amada: molhados lábios
em sua boca na sensação das águas
em que a vida segue o espaço.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Navegar é Preciso - Tânia Du Bois


Du Bois sobre Leminski, em:
https://books.google.com.br/books?id=dFsrAwAAQBAJ&pg=PA59&lpg=PA59&dq=%22Pedro+Du+Bois%22&source=bl&ots=siQD4vzFqP&sig=ACfU3U2b_V9_WUXIQ8zumhUacT9HNATVYg&hl=pt-BR&sa=X&ved=2ahUKEwiOgonUx9nlAhXfGLkGHcQrBqM4PBDoATABegQICRAB#v=onepage&q=%22Pedro%20Du%20Bois%22&f=false

TERRAS


até aqui o país geográfico
em terras de donos infindáveis
no nada arado e o gado ausente
das decisões em cartórios

depois outro país geográfico
de linguajar diferente
e costumes acostumados
em terras que não pertencem
deixadas para os parentes

além da geografia a terra
que tem outros donos
proprietários multiplicados
de fronteiras em que soldados
perseguem prendem e matam

além de tudo não há nada
que possa ser desocupado.

(Pedro Du Bois, inédito)