sábado, 22 de fevereiro de 2020

LIVRE



No paradoxo
a ignorância
se completa

homenageiam
na Praça da Liberdade
o arauto da ditadura

não deixou que falassem
não deixou palavras
não deixou qualquer gesto
com que poderíamos
ter abreviado a escuridão

a liberdade é assim
paradoxalmente livre.

(Pedro Du Bois, inédito)


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

RESSENTIMENTO



O ressentimento
estilhaça as vidraças

a alma exposta
se recolhe

cacos são recolhidos
recompostos e colados
em nova raiva

ciclos repetidos
em que não há ganho
nem vida a ser contada.

(Pedro Du Bois, inédito)




terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Modus vivendi

Teia, em:http://amata.anaroque.com/arquivo/2020/02/teia

ANGELICAL



Trouxe o barulho das águas
                            dos ventos
                            das florestas

acrescentou nossos sons
ditos
tocados
cantados
mastigados
pisados

encontrou os que foram embora
antes do tempo
    repôs os desejos
                   lampejos
                   arpejos

voltou a ser o mensageiro retornado
ao início aquém do começo
onde permanecemos
em gestos
      gostos
      barulhos
   e amores.

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 16 de fevereiro de 2020

SÍMBOLO



Simboliza o final do caminho
onde se perdem os espíritos
sem música e canções
nem a continuidade da vida
na alegria e tristeza das bençãos
nupciais e nas elegias pós-terrenas

simboliza o término do trajeto
parede erguida contra a liberdade
na não escolha escondida na verdade
com que nos iludimos naqueles dias
de homenagens e aplausos

simboliza o acabar do tempo
e ponteiros em muda decoração
lembram minutos anteriores
de corações leves e arteiros
com que brincávamos o mundo
ao explorar os sentimentos.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

CICLOS



Nuvens escurecem relacionamentos
ao longe o grito das sereias
tantos afogados as cansam
mares revoltos de poucas pedras
...
renascido corpo em outra viagem
que acontece antes da partida
anunciada em altas músicas
de letras murmuradas em rezas
...
sob as unhas a sujeira que ficou da terra
da casca da árvore retirada com esforço
o rosto rasgado em raivas consentidas
no desinteresse pelo acontecido
...
o dia de amanhã no reflexo da janela
barulho de pregos em quadros
pendurados e da cozinha o aroma
da carne frita: fritadas carniças.

(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

ALÉM



O homem persegue a caça
que o cassa em direitos

do alto do cargo o burocrata
vê a caça e o homem
e os cassa linearmente

acima do burocrata o político
se vangloria dos votos recebidos
vira as costas à caça
e ao burocrata que o cassa

além do político o vazio preenche
o nada em gongóricos discursos
de promessas: a caça
                        o homem
                     e o político
                     cassados estão.

(Pedro Du Bois, inédito)