segunda-feira, 24 de abril de 2017

MONOTONIA

No instinto o corpo salta
e leva a esperança
que estraga a surpresa
do chegar silencioso

todos sabem
o medo de quem salta

o instinto busca sobreviver
mais um dia entre tantos
em mãos ligeiras
     e pernas ágeis
na monótona rotina
antes que a bala alcance
ou que outros o peguem

todos sabem o medo
de quem não salta.

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 22 de abril de 2017

CURRÍCULO

Mede a distância
traça trajetórias
esbarra

milimetricamente
calculo o ângulo
derruba

fecha o olho
alça a mira
erra

avalia o salto
retesa os músculos
embala as pernas
tropeça.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 20 de abril de 2017

QUEM ESPERA

Na espera deformo a realidade
em que parte reflete novas imagens
e outra antecipa angústias

deveria estar acostumado
pois cada espera cria suas expectativas
ao aumentar e
                   ou retornar velhos fantasmas

razão para não ter chegado
nem abreviado o tempo necessário
                                 suficiente
                                 e raso para novas esperas

na espera encontro a outra imagem: vozes
sussurram alvíssaras em coros fracassados

na tentativa do equilíbrio
a espera traduz a sensação
de passar por baixo da escada.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 18 de abril de 2017

ACASO

Nada acontece por acaso
pode acontecer por descaso

ou nem acontecer

não há outro sentido
além da vontade

no realizar os instintos
desenvolvidos no sentido
que nos enlouquece
ao pensar que algo
acontece por mero acaso.

(Pedro Du Bois, inédito)


domingo, 16 de abril de 2017

FUTURO

futuro despreocupado
em presente favorável
de financiamentos facilitados
teatros com atores televisivos
televisão de modelos atuantes
modelos com pouco estudo
mas com presença
                charme
        e disponibilidade

futuro despreocupado
no presente em músicas
                    rap
                    hop
                    bop
                    tecno e tal
                    comercializadas
         em bailes apresentados
        de cristos representados
        nas comissões recolhidas

futuro despreocupado: não
               há preocupação
pelo (ainda) inexistente

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 15 de abril de 2017

MEDROSOS

Medrosos são difíceis de morrer
                                      e de matar
                  (não cometem suicídio)

não são cortados na primeira dispensa
nem assaltados em ruas escuras
        atropelados ao atravessarem as ruas
        roubados na manipulação financeira
        esfolados na queda abrupta do dólar

não se resfriam
não são viróticos
não sofrem de cirrose
nem ficam em overdoses

medrosos são nossas defesas
ao equilibrar as balanças
e evitar a radicalização
             nas pesquisas

(só) morrem quando o medo
transborda seus potes de defesa.

(Pedro Du Bois, inédito)
     

quinta-feira, 13 de abril de 2017

LUZ DO SOL

Houve o primeiro dia
em que o homem
percebeu a luz do Sol

houve a primeira noite
em que o homem
notou faltar a luz do Sol

o homem percebeu além
do ser errante pelas pradarias

percebeu haver o Planeta.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 11 de abril de 2017

PALAVRAS

Gasto palavras presentes
no que me representam

não me recrimino pelo dito
passado: não o faço voltar

não guardo palavras futuras
poderão ser tempos de calar

palavras presas na raiva
inerte das autoridades
secas entre (des)iguais

gasto palavras
não repito termos
      abuso verbos
      parcimonioso adjetivo
      fujo advérbios.

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 9 de abril de 2017

OUTRAS ESPERAS

                                           para Thereza

Ampliada espera
em angustiados
pensamentos. Quanto
tempo o verde aguarda
antes amadureçam
frutos recorrentes.

Rasgado tempo
de enviesada espera.
Sempre há quem saia
além de quem volta.

Avista: prerrogativa etérea
de quem olha em frente.
Toda demora predispõe
                        esperas.

Tantas esperas
poucas angústias
encerram.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 7 de abril de 2017

DORES

dizer que tantos
falam na purificação do espírito
pela dor

dizer que carregam
o sofrimento do mundo
pela dor

dizer que sofrem
os pecados alheios
pela dor

e não dizer
da estupidez do corpo
sofrido - apenas - pela dor
consentida

(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 5 de abril de 2017

ESPERAR

A angústia amplifica
o tempo de espera

o tempo multiplica
a angústia na espera

a espera torna infinita
a angústia temporal

indeléveis
marcas da paixão.

(Pedro Du Bois, inédito)

segunda-feira, 3 de abril de 2017

ATIVIDADES

Verifico as horas faltantes
           para terminar o dia

não são tantas
      são tontas
      como as anteriores

              horas perdidas
              em comprar comida
                    preparar comida
                                  comer

vejo as horas restantes
do dia

              lavo os pratos.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 30 de março de 2017

Donos, em Poet's Dream

A SPECIAL MENTION FOR A GREAT POEM

I am fascinated by foreign languages, especially those that I don't understand fully or not at all. They allow me to focus on the sounds, rhythms and melodies that sometimes resemble music. Reading them is a little different of course, yet comes close. Today, my attention was drawn to +Pedro Du Bois 's entry DONOS. I checked the translation, but the original is so much more than just the meaning of the words. Therefore, I am happy to pronounce it Poem of the Day. Enjoy!

https://plus.google.com/u/0/108438516741639533660/posts/btU6AYCKCoP?cfem=1

DONOS

Minha
meu

sentido de propriedade
e posse

certidões
contratos
escrituras
registros

óbitos
espólios
heranças

enfileiradas carneiras
              ossário coletivo.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 28 de março de 2017

ESCALAR

a escadaria enrodilhada
em degraus simétricos

o corpo ante
a tontura vaga
no degrau da escada

os saltos dos sapatos
no mármore da escalada

no fim da escada
o corredor escuro
frente ao nada.

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 26 de março de 2017

PRESENÇAS

Registro o nome
no livro aberto
aos presentes

o ausente ser
apresenta a face
da impaciência
na morte

em volta do caixão
vicejam conversas
lacrimejantes em risos

o registro guardado
ao corpo será lido
- nome a nome -
no recesso do tempo
restante.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 24 de março de 2017

meiotom poesia&prosa

Hordas/Hordes, em:
http://www.meiotom.art.br/dupo17horda.html

PODERES

Posso ser tantos
                 santo
posso ser menos
                   nada
posso ser a hora
            estanque
            posso ser outro
                            mesmo
            posso ser vida
                            morte
                            posso perseguir dias
                                                      noites
                            posso vencer
                                       perder
posso esquecer
          lembrar
posso ser homem
                animal.

(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 22 de março de 2017

meiotom poesia&prosa

Música e Palavra, em:
http://www.meiotom.art.br/dupo17mp.html

Isla Negra 440 + Navegaciones114

Pedro Du Bois
Brasil
Música e palavra

A música atravessou milênios
sacralizada no tom repetido
como interlúdio
intermezzo
interrogação
sobre as palavras

plurais palavras se repartiram
na repetição do foi nominado

a música altera o sentimento
do que é dito

foge do padrão inicial
ao multiplicar os sons da natureza
nos sons criados pelo homem

palavras e músicas caladas
são amores descobertos

no beijo na boca.



NOMINAR

Anônimo
interpreta o papel
esquecido        fala sobre o corpo
     recolhido ao sussurro
: o nome pronunciado indica
a origem
o caminho
o medo
explicitado na oferenda
e o siso contornado
em alas abrandadas
onde vidraças estilhaçam
pontos de reconhecimento.

A cor expressada ao abrir
os olhos determina
o momento em que o nome
não assumido aflora paixões
e desperdícios atomizam
regras reescritas na conformidade
exigida pelo rito em que se entrechocam
nomes            alcunhas        e apelidos
singelos apostos na infância: infâmia
nominada em restrito chamamento.

(Pedro Du Bois, inédito)


segunda-feira, 20 de março de 2017

TERRAS

Na terra
a pedra
esculpida

na terra
a guerra
consumida

na terra
o olhar
terreno

na terra a ambição
do eixo imaginário

desterro o sonho
e o aprofundo
em cosmos equilibrados
                   sustentados
                   indissolúveis.

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 18 de março de 2017

EXAUSTO

Entrego verdades
ao lixo: catadas
em dias maldosos

não interessam luzes
barulhos
silêncios
murmúrios
palavras ao pé do olvido

encarcero a palavra feito
enfeite sobre as mesas
e a despojo ao solo
sob botas de dizeres

escuto o grito que me orienta
no não revelado: do cansaço
trago o desprezo dos dias acesos.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 16 de março de 2017

NOME

Ao me perguntarem o nome
penso o começo e digo pedro
mesmo não sendo pedro
o primeiro nome recebido

no nome escondido
em que se expõe
a dor do parto

como se comporta a angústia
compreendida na impotência
revestida na espera do nome
                       ainda não dito

inaudita a criança nasce
no tempo aproximado
em que o corpo
a expulsa

o nome não vem junto:
aposto no futuro instante
em que se integra ao ser
e o torna permanente.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 14 de março de 2017

CORPO

O abandonado corpo subsiste ao tempo
em partes decomposto pela ignorada vida
de sucessivos fracassos desentendidos

o arcabouço reflete os sentidos
opostos nos descobrimentos:

o tanto percebido ao sabor do vento
nas mãos do ladrão apoderado do fracasso

o corpo não descansa em insensata matéria
na limpeza crua da decomposição atávica.

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 12 de março de 2017

DISCURSOS

No discurso retiro a ênfase
transubstanciada em esgares

a mão prende o cumprimento
dispensado: a pausa dignifica
a frase estendida em ares
ecoados nas repetições

apático ouvinte assevera
ao transeunte estático
sobre céus primaveris

não me prendo em substantivos
de êxtases deprimentes no esquartejar
do alquebrado: pedra no estilingue
disparado em reconhecimento.

(Pedro Du Bois, inédito)


sexta-feira, 10 de março de 2017

MORRERES

Não basta
a morte
natural:

adoece o corpo em insondáveis
espectros de decomposição

temos assassinatos
           morticínios
           catástrofes

a morte personalizada
na desistente impotência
de cada ato suicida.

(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 8 de março de 2017

OUVIR

Ouço a voz estática do que é dito.
A vida se mostra impura na ideia
dolorida das ressacas. Estar aqui
é contingência inelutável
da passagem gerada no vínculo
absurdo da maldade sobreposta
em atos desatinados de fatuidade
: nada representa a dureza
dos elementos em que minha
fala falseia a verdade na hora
de ser forte em solidariedades
(como se importasse): carrego
a ilusão simplória da fortuna
no fechar o caminho ao futuro:
ficar é inadmissível na voragem
dos sentidos: o sentimento dói
na verdade em que o corpo cede
e os olhos são fechados.

(Pedro Du Bois, inédito)

segunda-feira, 6 de março de 2017

TRADUZIR

Escuto o verso
            traduzido
            no absurdo
            gesto de mãos
acenadas ao infinito: palavras
                                      em retrocesso

             assisto o verso
             em gestos mensurados

conclusivo o verso
entreabre o infinito
e se demonstra
   não traduzido.

(Pedro Du Bois, inédito)
               

sábado, 4 de março de 2017

TÂNIA

De todos os rostos
de todos os olhos
de todos os sorrisos
              teu sorriso

na sinceridade do ato
teu sorriso anuncia
o tempo demonstrado.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 2 de março de 2017

VIDA

A vida
nos conquista
pelo desafio
inimaginável dos fatos
despojados em árvores
sempre vivas

retira o sumo
que nos consome.

(Pedro Du Bois, inédito)



terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

ELOS

Acorrentados
em amizades
indestrutíveis

ansiamos
a liberdade
dos inimigos.

(Pedro Du Bois, inédito)


domingo, 26 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

SER

quem se desvincula da família
e na solidão repete o nome
na exaustão do irreconhecível

destaca nas frases
os gritos de fadiga

quem entre parentes
nega o sangue na lividez
do encontro: sugere a fuga
transposta na imagem

usa em cada texto
as mesmas palavras

quem em casa abre as janelas
no balcão suspenso de raivas
acobertadas pelo nome
no sangue deletério

conserva o sentido inicial
do verso de forma conclusiva

(Pedro Du Bois, inédito)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

PAIXÃO

O tempo da paixão
encerrada em portas
destrancadas: na rua
pulsa o inexato
no retorno

esgarçado amor movido
em abraços não recebidos

ecoa em série inconclusiva
a lágrima suspensa: o suspense
                 no rosto espelha
       a hora antecedente

a rua absorve na noite
os transeuntes que engole
em ritos de magia

na pardacenta paixão
irresolvível.

(Pedro Du Bois, inédito)


sábado, 18 de fevereiro de 2017

AVISOS

Aviso aos claudicantes: não existe o tigre
místico e suas manchas são falsas pistas
do mistério. Abro os olhos ao monstro
sob as cobertas: outro dia em que a rotina
é caminho traçado pelo minotauro

aviso aos navegantes: mares impróprios
no canto das tormentas vislumbrado
na sereia sobre a pedra atomizada
pela cristalização dos humores

aviso aos transeuntes: em noites de lua
transitam sombras em calçadas exatas
na agonia do cerco ao meio dia.

(Pedro Du Bois, inédito)


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

ALÉM

longe a torre
anuncia vozes
na chegada

além a chuva
se estende na linha
do horizonte

a tudo assisto
calado

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

VEZES

Na primeira vez
nervoso
na estrada
acompanhei a sua passagem
senhora

voltei para casa
trêmulo
da sua visão

na última vez
não acompanhei
a sua passagem
senhora

nem voltei para casa
morto
em sua visão.

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 12 de fevereiro de 2017

MAL

Da maldade
emergem sombrias
formas de desalento

tomam luzes
engolem cores
transformam dias
               em noites

despetalam flores
derrubam pássaros
caçam animais silvestres

predadora maldade
disfarçada em sorrisos
                         banais.

(Pedro Du Bois, inédito)


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

CIGANO

Cigano em si
reflete-se nas cartas
e risca na mão linhas
imaginárias do futuro

andarilho em linhas tortas
pede abrigo ao sedentário
de quem colhe os frutos

imagina o mundo permanente
em seu redor: sente o frio
verão das vendas escamoteadas

não tem o abrigo
e sob tendas remete
ao início: a música dança
em seus ouvidos e cartas
se abrem em jogos inconclusos

cigano em si
desatina desencontros
tardios de serenidade.

(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

FOTOGRAFIA

Confisco a fotografia
em relembranças
desbotadas: onde
o tempo fotografado
na imensidão ampliada
da saudade.

(Pedro Du Bois, inédito)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

RETORNAR

                                          Apuro o passo
                                          no retorno

minha noite finda
em relento: apressado
cruzo caminhos
reconhecidos
na aspereza

o retorno necessário
               indelével
               inalienável

chove sobre meu corpo exposto
o barro suja meus sapatos

                a água purifica a essência
                do que levo embora

                retorno sobre passos
                apurados
                acurados
                no acaso de estar ciente.

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 4 de fevereiro de 2017

ARMAS

Despreza a arma
                   arma a tarde
                   oferece o pouco

a arma prende a mão vazia
da exigência: arma a proteção
alegada em defesa
                   arma a consequência
                   disparada no alarme
                   travado no resultado
                                     desconsiderado

a arma despojada na entrega
se oferece em pecado: dilema
consubstanciado na resposta

arma com desprezo o conteúdo
esvaziado da cidade: o resultado
aflora a flor da beira da estrada

despreza a arma sobre a terra
que a consome em oxidação.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

RITUAIS

Na ilusão a realidade se conforma
na escuridão ameaçada no inaudito
gesto de acobertamento: rápida a mão
que afaga o rosto enquanto esquece
as palavras. Iludido no retorno do peso
no corpo carregado fosse carga.
A irrealidade acompanha os passos
no refletir o instante onde me traduzo
no corpo desfeito: maneira cruel
de responder ao nada acontecido.
A recompensa se oferece ao tolo
iludido pela mágica: a cristalização
da cena completa a irracionalidade
do ato na desproporção anterior
ao momento. Momentaneamente
afastado escalo o ar rarefeito
da montanha e me incorporo
ao rito: ara irrespondível
no sacrifício diário.

(Pedro Du Bois, inédito)

TriploV Blog

(Des)importância, em:
https://triplovblog.wordpress.com/2017/02/01/poema-23/?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+wordpress%2FYcoP+%28TriploV+Blog%29

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

FALAR

entende o que falo
                      fala
             responde
conversamos sobre assuntos
que não nos dizem respeito

respeita meus pontos de vista
e não participa
         compreende as razões
         traduzidas em nova linguagem

gestos descompensados
de palavras
compensam a leveza
da linguagem

repete o que falo (de outra forma)
e a vida segue seu caminho
em silêncio

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 29 de janeiro de 2017

MUNDO

a ilusão da chuva contra a vidraça
a ilusão do olhar da mulher pela janela
a ilusão do pássaro em sobrevoo
a ilusão dos amantes nos corpos sobrepostos
a ilusão do mágico ao desaparecer objetos
a ilusão das letras em versos
a ilusão da luz sobre os insetos
a ilusão do saber ante o inexplicável
a ilusão de fazer repetir o dia
a ilusão no refazer corpos estraçalhados
a ilusão derradeira da sobrevida
a ilusão do barco em águas deslizadas
a ilusão da visão embevecida dos pais
a ilusão da chuva contra a vidraça

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

NADA

A imensidão em nada refaz espaços
ocupados na aliteração do espírito
indisposto ao corpóreo esforço: enfado
e alguma forma de pecado: o escravo
se faz transparente na ilusão do toque
telefônico: o nada prolifera seriedades
no limite inócuo das apostas: o ator
representa a vida em cenas possuídas
ao extremo: o nada impulsiona luzes
por onde passam homens comuns
que na obrigatoriedade dos excesso
requisitam a plenitude alcançada
na atuação aprimorada do texto
decorado: o espírito indiferente
ao corpo crispado sobre o copo
despejado na ocupação do espaço
em nada
       em nada
          nada.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Isla Negra 437 + Navegaciones111.docx

Pedro Du Bois
Brasil
Passado
 
Escavamos destroços
retiramos camadas
terras e terras 
sobre séculos
 
na busca das respostas
que não existem: (pois) 
apenas crescemos
pouco a pouco nas gerações
que nos sucederam
 
assim
como música e vento
e árvores
 
escavamos trajetos
felizes em nos descobrirmos
menores e meninos.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

FÚRIA

Tem no sentimento
a fúria
interminável
com que preenche
as horas vagas
dos encontros

avassala o tempo
em subterfúgios para conseguir
o intento: o contato na pele
indelével do encanto quebrado
no reflexo: fúria incontrolável
no afeto negado ao pensamento
teórico das contradições.

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 21 de janeiro de 2017

MUSA

Da musa retiro o enfeite

            nua
            circula
            em jardins suspensos

na imagem
a memória gesta
a fala onde se insere

a musa recompõe o mistério
entrevisto
              antevisto nas sombras
              do vulto em retirada

infeliz o velho expira o corpo
descoberto: o cego se penitencia
da visão esquecida em luzes
              do que se lembra

a musa se dispõe ao rito: aguarda
em cada linha a roupa costurada
em textos infindáveis da nudez
em detalhes na entrega absorvida
                                 pela cidade.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

SEMPRE

há o discurso
menor da cassandra
não original do estio

tempos de febres alvoroçadas
pela perda de comando

o indistinto rufar das asas
descoloridas da besta
no basta anunciado

tempos de falsas alegorias
em carnavais (re)começados

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

MODOS

Identificar na sanha
a cena indiferente onde consumidos
corpos em suas belezas

responder questões transpostas
dos desfiladeiros: ter as mãos
na aspereza do encontro

recomeçar a troca imaginada
em que tormentas amainam espaços
demonstrados em assustados tempos

rememorar o alcance inabitado
da flecha disparada ao contrário
no corpo do indefeso ser

restabelecer o contato no extremo
retirado ao sumo do instante

reacender luzes amanhecidas de penumbra
ao vislumbrar no discurso o trecho
menor das inconfidências.

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 15 de janeiro de 2017

PERDAS

Dizem que perco
o que perco
como perco
dizem como devo me comportar
na perda: que a perda é inerente
na sustentação da vontade
pela vitória

dizem que me perco em argumentos
diversos do sujeito: direto do ocaso
por onde passam as trajetórias

dizem que perco o sentido
que perco as luzes
que perco o escuro
prometido aos que virão

dizem que perco a razão
e me escondo sob escombros
não removidos das construções
ordinárias dos dias.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Revista Labirinto Literário

Pedro Du Bois

Mudar

Busco a mudança
no incógnito regresso
ao ventre
exijo outra
         nova
         repetida forma
         na deformação do corpo
         em desconhecimento

tenho o medo resolvido
entre os dedos: a coragem
nas brincadeiras
infantis do reconhecimento

mudo o foco no desatino
das sentenças
em que como igual
                  permaneço.

(Labirinto Literário n. 46, ano 11, Jan/Fev/Mar 2017, página 21)

ESTAÇÕES

O frio permanece na hora
quente do verão entrante.
              Findo o tempo de permanência
              aberto no instante da despedida.
A memória revolta vidas
    antecipadas na partida.
                       A noção do medo imagina
            a passagem do espírito acolhedor
                          em esquentados outonos
               de invernos adquiridos ao ciclo.

(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

(A)TENÇÕES

ouve: o progresso pulsa sensações
eletro-eletrônicas e a mecânica capta
a aspereza das roldanas: pregos
em paredes: cantoneiras abertas
de chuvas passadas no estertor do som

vê: o regresso cancelado em viagens
despossuídas de sentidos: corpos
em sóis de desabrigo: malas
de roupas não usadas na sensação
do possuir o objeto: profusão
de cores na indicação da jornada

sente: a maciez do tecido anteposto
na dureza do estilo: ordens: comando:
o desmando desarma sorrisos na volta
ao nada readmitido pela incerteza
das cordas distendidas no universo

sustenta: a glória reacende
o corpo: doenças trabalham
mazelas: retornam no pouco
conhecido da verdade

(Pedro Du Bois, inédito)


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

METÁFORAS

Uso palavras distintas
                      diferentes
                      rearranjo modos
                                     tempos
                              significados
                      distraio o sentido
                      ameaço o sentido
                      rechaço sentidos
                                   sobre o que escrevo
                                   não digo
                                   não falo
                                          resvalo no contexto
                                          o âmago conduzido
                                          da verdadeira palavra

alegórico
dispenso o fator
direto na comunicabilidade

a floresta me consome em gritos
abaixo da linha da saudade.

(Pedro Du Bois, inédito)
         

domingo, 8 de janeiro de 2017

CAMINHAR, na leitura de W. J. Solha



DU BOIS OU NE PAS DU BOIS,
C´EST LÀ LA QUESTION

W. J. Solha

CAMINHAR é a primeira parte do livro POEMAS, de Pedro Du Bois, Projeto Passo Fundo 2016.
-
Tenho resenhado livros, ultimamente, que me levaram a um processo que se pode chamar de decifração, decodificação. Fiz isso com vários contos de Everardo Norões que acabaram ganhando o prêmio Telecom do ano passado, grandes histórias – reais - sempre sob suas estórias, que as reduzem até o aparentemente simples.  Fiz isso, também,  com o mais recente INTERSECÇÕES, de Cleber Pacheco,  que – opostamente - de cara, mostra de que simples não tem nada.
Bem,
agora recebo o POEMAS, de Pedro Du Bois, e me sinto como quem pelo menos pensava ter traduzido a pedra de Roseta, o código genético,  e, de repente, dá de testa com a Pedra do Ingá.
-
Apesar de “conhecer” a poesia anterior desse estranho gaúcho, de quem já produzi resenha com o sintomático título de ENIGMA DU BOIS, pensei que pudesse – depois de passar pelo teste da abertura – que se chama CAMINHAR - acelerar o passo, mas vi que isso não seria possível e que me exigiria muito, mas muito mais esforço mental  ( e tempo ), de modo que  - “Devagar com o andor”, eu me reprimo,  e – pés no chão, pois estou com meu próprio livro em andamento – faço agora com o sapateiro que, feliz depois de ver aceita uma observação que fizera sobre as sandálias de um retratado por Velásquez, arvorou-se em crítico de luzes e sombras da obra de arte, pelo que recebeu um severo
- Zapatero:  a tus sapatos!
Não vou nem tentar gastar sola agora, portanto, com os demais livros do POEMAS: fico, por enquanto, com suas primeiras vinte e uma páginas.
-
OK.
Em  O ENIGMA DU BOIS eu aventara a hipótese, primeiro, de que seu processo de criação seria o mesmo do proclamado  pelo movimento DADA, em que se poderia recortar frases soltas de um jornal, metê-las num saco, sacudi-las  e juntá-las ao acaso. Vi, entretanto, que não se tratava disso, mas de algo na linha do FINNEGANS WAKE, em que uma intenção poderosa subsiste sob cada palavra. Meu inglês é o do ginásio, e me é impossível entender o que Joyce diz no primeiro parágrafo desse seu derradeiro livro, mas veja  se você  consegue:
-
riverrum, past Eve and Adam´s, from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodius vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs
-
Tradução de Augusto de Campos:
-
riocorrente, depois de Eva e Adão, do desvio da praia à dobra da baía, devolve-nos por um commodius vicus de recirculação devolta a Howth Castle Ecercanias.
-
Não entendi. Daí que vou à versão de Donaldo Schüler:
-
rolarrioanna e passa por Nossenhora d´Ohmem´s, roçando a praia, beirando ABahia, reconduz-nos por cominhos recorrentes de Vico ao de Howth Castelo Earredores.
-
Está mais claro.... mas não faço ideia de por que o tradutor trocou o Adão e a Eva por Nossenhora d´Ohmem´s.
Bem.
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, segue essa recriação de linguagem, como se vê logo no começo do romance:
-
Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. 
Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto.
Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade.
-
Essas coisas sempre me levam ao italiano límpido de Dante ao começar La Divina Commedia dizendo que “Nel mezzo del cammin di nostra vita”, que a tradução de José Pedro Xavier Pinheiro transformou num simulacro do Hino Nacional:
- Da nossa vida, em meio da jornada....
Volto a Du Bois. No poema 18 dessa primeira parte de seu livro POEMAS, que é CAMINNHAR, ele diz que “Trancafia a palavra em signos”, “Comprime o significado”, pelo que me parece que podermos, em seu próprio texto, chegar ao seu sistema.
No poema 21, ele diz ( lembre-se de que o tema é o caminhar) :
“A luz que ilumina a intuição.
Onde coloca os pés.
Onde fixa os olhos. Descobre
o destino da paisagem e se diz
ciente da responsabilidade.”
-
O que é que ele faz, então?:
“APAGA
A LUZ E APROVEITA
DA ESCURIDÃO
O POUCO”.
Esta, parece-me, é a sua poética.
Veja só o poema 32: ele  me lembra de imediato uma cena de  “Sobre Meninos e Lobos” – do Dennis Lehane, filme de Climt Eastwood, e também uma, igual, de “O Iluminado” - de Kubrick,  - mas minha memória vai bem mais longe, para um faroeste – filme ou história em quadrinhos – visto na infância:  o índio, percebendo-se seguido, para, vê que seus mocassins deixam rastros muito visíveis, anda para trás, pisando as próprias pegadas, apagando as já repassadas, até chegar a umas pedras, donde, correndo, parte pra nova trajetória. Eis o Du Bois, como se estivesse entre os que conviveram com os moicanos:
“Repisa passos
ao contrário
na direção oposta –
do seguimento: fica
sobre a terra conhecida.
-
 Onde o desconserto ocorre:
cessa a busca
no convencimento
da permanência.
-
 Apaga na trilha
o espaço ocupado
em cada passo.”
Ou seja.
Du Bois não quer ser lido por quem não “apaga/ a luz e aproveita/ da escuridão/ o pouco”. Por isso “faz da travessia / pesada cruz “ ( poema 1 ). E “ diferencia o acompanhante do intruso. / Distingue o cheiro a vista o tato” (  Poema 5 ).
Por que?
Whay? - como grita ao céu o Jesus Cristo Superstar, no Getsêmani:
Jesus Cristo.
Volto ao Poema 1:
“Premeditação: nasce em pecado
Faz da travessia
pesada cruz.
-
Sofre no aprendizado
a tragédia inerente
à sua condição. “
“Sofre no aprendizado”:
- I'm sad and tired.
Mas é bem Du Bois o final inesperado, agora bem estilo A Última Tentação de Cristo – romance de Kazantzakis, filme de Scorcese:
“Conforta saber da perdição
originada no momento sôfrego
e que corpos se entrelaçam.”
Viu aí? :
Sexo.
O tema volta no Poema 2:
“O animal acasalado
expulsa demônios de terras não aradas.
-
Vê e compreende a necessidade
do desejo.”
-
Palavras que se repetem nos versos desse CAMINHAR: Desejo, pecado, fome.  Ainda no Poema 2:
-
“a fome atravessa
a terra onde se embrenha.”
-
Isso prossegue no poema 3 ( e tudo agora começa a me parecer mais simples):
“Apressa o passo
a fome dirige o pecado.”
(...)
Não pensa o pecado
e o mal se acomoda
na sobrevivência.”
-
Poema 4, terceto final:
-
“Acorda e concebe a fome.
Caçador e caça.”
-
O ENIGMA DU BOIS cresce no Poema 6:
-
“Assusta o pássaro. O urro retorna
Em gritos. ASSUSTA RECONHECER O OUTRO
NA IGUALDADE.. A desigualdade
na aproximação em corpos cansados
das jornadas. SABE DA VIDA
O NECESSÁRIO À FUGA E AO SILÊNCIO.
O segundo passo predispõe a sequência.”
-
Ele está nos contando uma história! 
Poema 7:
-
 “Cessa a caminhada (...) (corpos / pedem contatos) Penetra /a carne e a recebe em vontade.” // “Há vida na repetição. Rompe o cordão / em desespero.”
-
Este final é muito bom:
-
“ O choro interrompe / a extinção da espécie”.
-
Mas isso não basta. Lá adiante, nesse mesmo CAMINHAR ( do livro e da vida ), ele, no Poema 17,
“Mede palmos. Há medo. Receia
o encontro: advinha o que se esconde
no encontro.”
19:
(...)
“Seguir em frente significa
deixar o consentido)”
-
Agora leia isto, do Poema 24, com atenção:
-
“O amor relembrado / é dor continuada. (... ) A família constituída / com carinho. O AMOR /EMPAREDADO EM DESCENDÊNCIA / RESSOA ORDENS NÃO CUMPRIDAS”.
-
O Poema 25, nessas circunstâncias, é poderoso:
-
“Através da porta a madeira
assume o gesto do reencontro.
Volta. Está além do retorno
e tem a frigidez do corpo
desacompanhado.  O medo
impele a mão que toca
a madeira. A solidão ecoa
o passado. O FUTURO É O ESTRONDO
COM QUE A CHAVE É GIRADA.”
-
A chave. É a mesma que reaparece no Poema 41:
-
“Muitas vezes multiplica o trajeto” (...) JOGA A CHAVE / FORA E SE MANTÉM COMO HÓSPEDE.”
-
Bem, aí está.
Pode ser que eu esteja absolutamente certo, esteja absolutamente errado. Se você se sente à vontade, o livro tem seis outras partes como essa, vá em frente. A Pedra do Ingá – aqui, nas fuças da gente - não foi, ainda, decifrada.  





Dizer

Pedro Du Bois
Brasil
Dizer

Disse do fim do mundo
            o medo irrecorrível
            de não estar
            mais aqui

                    na semana
                    próxima:

disse dos compromissos
                        inadiáveis

do estudo
     dos filhos
           das férias
                  programadas
                  no longo
                       prazo

disse do fim de tudo
e sorriu dívidas

              impagáveis.


sábado, 7 de janeiro de 2017

LER

Avanço a leitura
descontinuada
diuturna de adulto
adulterado em palavras
de verbos elididos
na libertação do personagem
minorado no sofrimento
de páginas intercaladas

risco na folha a forma
aproveitada em viagens

acolho o livro sob o braço
e descanso a vista em horizontes
anteriores ao mistério

retorno a leitura procurando
deduzir os começos repetidos

fecho o livro: depositado na estante
inalcançável da lembrança: repouso
a mente: olhos se fecham por instantes.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

INSPIRAÇÕES

Respiro o ar contaminado da cidade
aspiro o ar artificial da autoridade
retiro o ar recondicionado da escada
sustento o ar poluído das esferas
compreendo o ar com que me ofende
calo o ar rarefeito dos encontros
descubro o ar (quase) perfeito do perfume
expiro o ar enclausurado enquanto vivo.

(Pedro Du Bois, inédito)