sábado, 4 de abril de 2020

ESTAR




Que a cidade estivesse lá como era na minha juventude
suas praças bem cuidadas e guardadas suas árvores
a igreja em construção - foi toda uma vida? - 
buracos pelas ruas engolindo tubos de concreto
o concreto despontando em casas de estilo
estilos misturados na simplicidade do casario
e novos bairros - o dos ricos - com automóveis
surgindo no que era o novo país

que a cidade estivesse lá nos mesmos pontos e bares
onde todos se encontravam e éramos irresponsáveis
nas nossas poucas - ou tantas! - responsabilidades
de estar em casa de estar no colégio de estar por aí
conversando fiado trocando ideias descobrindo a vida

que a cidade estivesse lá com todo o meu passado
meus medos iniciais meu início meu quase andar
e que eu ainda estivesse com ela nos anos
que me foram caros e são apenas lembranças.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 2 de abril de 2020

ORGULHO














O orgulho ferido
transborda queixas
e sob ameaça confessa
o crime ao espelho

muda criatura cristalizada
ante o orgulho derramado

no outro lado o espelho
escurece a imagem
em que se contamina
e o ferimento não cicatriza
o orgulho exposto em crime.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 31 de março de 2020

COMODIDADE













Num dia comum
de horas comuns
atividades comuns
idas e voltas comuns

de repente
como nada
como tudo
como sempre
a irrealidade
inviabiliza
incomoda
a comodidade
que nos esconde

incomuns pessoas
            deslocadas
            desfocadas
        desesperadas
            pelo retorno
             comunitário.

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 29 de março de 2020

CHORO














Era a propaganda
com seus feitos
:aumentadas estrelas
 avistadas através
 dos telescópios

o melhor dos mundos
coordenado pela
maior inteligência

há o momento
em que sozinho
o pensamento
recai na solidão
e a verdade aflora
a insignificância
de alguém que chora.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 27 de março de 2020

DISTÂNCIAS














Distantes nos tornamos
menos críticos
na visão panorâmica
de amplos ângulos
em todas as curvas

na distância somos
meros pontos contra
a linha do horizonte

o distanciamento poupa
a vida nos sentimentos
resguardados no que
não podemos ver

distantes lembranças
abrandam a saudade
guardada nos corpos
aproximados.

(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 25 de março de 2020

FICAR















Se os previdentes ficam
se os correntes não vão
se os amorosos acampam
se os medrosos se escondem
só os oportunos veem o futuro

deles somos o resultado
em burgueses acomodados

infelizes diante das vitrinas
tristes figuras viajando férias

dos que foram buscar novos
mundos de desconhecidas
sensações não tivemos
notícias nem foram
semeando caminhos

poucos estão na estrada
e deles fugimos na lembrança
de que não fomos.

(Pedro Du Bois, inédito)

segunda-feira, 23 de março de 2020

DESCAMINHO














Por onde sigo
descaminho
em passos rápidos
no trajeto curto
descaminho
de longa caminhada
na chegada não prevista
descaminho
apresso (mais) os passos
por onde passo
descaminho
sei do fracasso
do regresso
para onde vou
descaminho
sei que não haverá
chegada.

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 21 de março de 2020

TANTO














Tanto ordenamos
        condenados
   tanto mudamos
              isolados
  tanto buscamos
         escondidos
  tanto queremos
    desesperados

o tonto não percebe
as oportunidades
brinca em ameaças

tanto da vida perdida
indo atrás do vento
e do vulto fugidio
das imagens

tanto sonhamos
         acordados.

(Pedro Du Bois, inédito)




quinta-feira, 19 de março de 2020

HISTÓRIA





Em voz baixa me contam a história
fatos e atos realizados e acontecidos
na vergonha de tempos de escuros
simulacros: a chuva bate contra
a vidraça e a água escorre vidas
perdidas em batalhas sangrentas
onde o ódio e a ganância alternam
os ataques: nossos irmãos fogem
para outras terras cujos donos
não os recebem simpaticamente

presos aos poderes maléficos
mantemos abaixadas as cabeças
e o orgulho escondido na vergonha
de sermos explorados e ludibriados
no medo que nos devora a mente

vozes mínimas repetem o texto oral
que do passado não há réplica 
sobre o que nos contam: fomos
sempre assim e ainda somos
pois a raiva cedeu lugar
ao impassível rosto: nenhuma 
fibra vibra onde não há mistério.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 17 de março de 2020

domingo, 15 de março de 2020

MENTIMOS













Mentimos dizendo sermos poucos
somos muitos e estamos presentes
                                  desde sempre

nossa natureza
nossa maneira
nosso gênese

avançamos como conquistadores
      protetores insinuados
                   ladrões camuflados

insuflamos exércitos em nosso benefício
calamos multidões em divisões e trocas
fazemos sofrer o irmão no que nos toca

mentimos nesta pouca idade
o pão e a carne conseguidos
no esforço da pilhagem.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 13 de março de 2020

VOLTAR













Na embriaguez do momento
o vento refresca o sentimento
de que estamos de volta
e tudo permanece

a nossa volta móveis familiares
transmitem histórias conhecidas

do que deixamos quando cansados
do que buscamos quando cansados
do que lembramos quando retornamos

na embriaguez do instante
o vulto se destaca e o sorriso
apaga o cansaço.

(Pedro Du Bois, inédito)


segunda-feira, 9 de março de 2020

INDEPENDÊNCIA













Momentaneamente fora de combate
o cansaço me faz refém
das horas vagas

        vago mundo repleto de trabalhos
a ordem em progresso positiva a raça
em genéticos ascendentes depurados

depressa volto à ativa
tantos procuram o meu lugar

o cansaço vence o corpo
e a alma dorme dobrada
na escrivaninha atrás
da cortina de fumaça

    não foi este o combate
que me pediram no início.

(Pedro Du Bois, inédito)


sábado, 7 de março de 2020

CONTAS




À porta aporta
o cobrador de contas
fazendo de conta
que irei pagar

apago o débito
esqueço a conta

não há condições
estou descondicionado
na desconsideração
da conta apresentada

em recontada história
o credor das contas
repassa o prejuízo
aos que pagam.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 5 de março de 2020

REPARTIR




Repartiremos o saque e sua parte igual
esconderá na bolsa em que levará
ouro prata quinquilharias e moedas
para satisfazer a vida por pouco tempo

outro saque programado armado os dentes
serão expostos em forças e terrores
quando do assalto e o salto se apresentará
no telhado entre janelas além das portas

repartiremos o saque e sua parte menor
será entregue sem solenidade ou festa
aos seus que por aqui ficaram

não participará de novos saques ou assaltos
e no escuro do caixão repousará sua carcaça
onde o sangue do inimigo não respingará
e o medo da chegada estará guardado.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 3 de março de 2020

FIM



  senhores de todos os males
  seguimos tortuosos caminhos
  de convencimentos autoritários
  somos os primeiros
             os melhores
             os mais fortes
             os mais rápidos

  temos o mecanismo do poder
  somos o poder personalizado

  senhores dos males avançamos
  pela terra e na água refrescamos
                             nossos reatores

  temos o começo e o fim do começo
                    somos o fim.

  (Pedro Du Bois, inédito)


TriploV Blog

Teia, em:
https://otriplovblog.wordpress.com/2020/03/03/poema-54/

domingo, 1 de março de 2020

Revista Cerrado Cultural

Atraso, em:
https://revistacerradocultural.blogspot.com/2020/03/atraso.html

Teia, em:
https://revistacerradocultural.blogspot.com/2020/03/teia.html

Arcanos Grávidos

Tempo Feito, em:
https://arcanosgravidos.blogspot.com/2020/03/tempo-feito.html

VINGANÇA




Toda vingança comporta a loucura exposta
em sua face - branca/escura a face da morte?
exige premeditação e raiva e ira e coragem
para se tornar o covarde que ataca
pelas costas na hora da saída de casa
- seria a casa a nossa fortaleza?
e no grito estreito o sangue ferve
olhos turvos de lembranças o tiro atinge
- seria o corpo responsável pelo ataque?
o corpo na calçada pela promessa feita
e cumprida diante de outro corpo caído
em calçada diversa e igual onde matam
- seriam as calçadas iguais nas mortes?
inocentes na prática do ato insano como
enlouquecidos são os gestos de amor
perdidos em vinganças torpes
- seria branca/escura a hora da vingança?

(Pedro Du Bois, inédito)



sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Arcanos Grávidos

Amares, em:
https://arcanosgravidos.blogspot.com/2020/02/amares.html

TERMINAR




o futuro como presente a ser recebido
mensagens escutadas em outras horas
desesperos perdidamente apaixonados
o correr dos passos adiante distante
estava quase aqui comigo no instante
em que o medo sobrepuja o desejo
some o sorriso silenciam os guizos
espero passar o corpo e alcanço
a carne presa você personificada
quero do resultado o pedaço restante
que reis devolvem ao povo as sobras
e o que resta nos satisfaz como tolos
efêmero sucesso momento conhecido
tintas letras palavras cenas apostas
amanheço e penso estar terminado

(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

OCASO



Destino ofertado
em óvulos na repetição
de espécies renovadas
reprovadas
recriminadas
em multiplicações
no mundo povoado
carregado pela emoção
em raças
gêneros
espécies
no preparado caldo
que transborda o prato

seremos nós
ressurgidos
ressurretos
revigorados
pelo destino
na raiva e ira
na fome e na noite
no sexo e no acaso
pelo ocaso da espécie.

(Pedro Du Bois, inédito)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

BOTE



Na derradeira forma falta o traço
que a desiguale do rabisco
alado gesto com que o braço traça
o desenho do rosto amado

armado o bote a serpente para
espera o instante em que a vítima
se mostra indefesa e fraca
então ataca na fração do raio
e pica onde os dentes alcançam
inocula a presa em peçonha

é seu o triunfo quando desenha
quem atacou e a tem paralisado
como derradeira forma refletida
na morte no corte e na ferida.

(Pedro Du Bois, inédito)


sábado, 22 de fevereiro de 2020

LIVRE



No paradoxo
a ignorância
se completa

homenageiam
na Praça da Liberdade
o arauto da ditadura

não deixou que falassem
não deixou palavras
não deixou qualquer gesto
com que poderíamos
ter abreviado a escuridão

a liberdade é assim
paradoxalmente livre.

(Pedro Du Bois, inédito)


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

RESSENTIMENTO



O ressentimento
estilhaça as vidraças

a alma exposta
se recolhe

cacos são recolhidos
recompostos e colados
em nova raiva

ciclos repetidos
em que não há ganho
nem vida a ser contada.

(Pedro Du Bois, inédito)




terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Modus vivendi

Teia, em:http://amata.anaroque.com/arquivo/2020/02/teia

ANGELICAL



Trouxe o barulho das águas
                            dos ventos
                            das florestas

acrescentou nossos sons
ditos
tocados
cantados
mastigados
pisados

encontrou os que foram embora
antes do tempo
    repôs os desejos
                   lampejos
                   arpejos

voltou a ser o mensageiro retornado
ao início aquém do começo
onde permanecemos
em gestos
      gostos
      barulhos
   e amores.

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 16 de fevereiro de 2020

SÍMBOLO



Simboliza o final do caminho
onde se perdem os espíritos
sem música e canções
nem a continuidade da vida
na alegria e tristeza das bençãos
nupciais e nas elegias pós-terrenas

simboliza o término do trajeto
parede erguida contra a liberdade
na não escolha escondida na verdade
com que nos iludimos naqueles dias
de homenagens e aplausos

simboliza o acabar do tempo
e ponteiros em muda decoração
lembram minutos anteriores
de corações leves e arteiros
com que brincávamos o mundo
ao explorar os sentimentos.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

CICLOS



Nuvens escurecem relacionamentos
ao longe o grito das sereias
tantos afogados as cansam
mares revoltos de poucas pedras
...
renascido corpo em outra viagem
que acontece antes da partida
anunciada em altas músicas
de letras murmuradas em rezas
...
sob as unhas a sujeira que ficou da terra
da casca da árvore retirada com esforço
o rosto rasgado em raivas consentidas
no desinteresse pelo acontecido
...
o dia de amanhã no reflexo da janela
barulho de pregos em quadros
pendurados e da cozinha o aroma
da carne frita: fritadas carniças.

(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

ALÉM



O homem persegue a caça
que o cassa em direitos

do alto do cargo o burocrata
vê a caça e o homem
e os cassa linearmente

acima do burocrata o político
se vangloria dos votos recebidos
vira as costas à caça
e ao burocrata que o cassa

além do político o vazio preenche
o nada em gongóricos discursos
de promessas: a caça
                        o homem
                     e o político
                     cassados estão.

(Pedro Du Bois, inédito)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Limites e Outros Exageros e outros poemas, por Maura Soares


Querido poeta/escritor Pedro,
confesso que a minha demora em comentar a obra deveu-se a leituras homeopáticas e as diversas paradas para mergulhar no significado de muitos dos teus escritos.
Confesso que em alguns eu logo captei e em outros li, reli e ah! eureka! entendi.
Tua obra é profunda, tantos nos limites quanto nos exageros, eis que o título é assim.
"A morte antecipa o desfecho: não saber o destino traçado pela divindade: dívida dos deuses em adeuses: flores de corpos descompostos". Sim, não viemos para cá com bula e nem o dia da partida. Nos entremeios amamos, odiamos, matamos, seviciamos...
E os silêncios... Praticamente fico em silêncio; uma música de fundo ali, outra só o barulho dos carros na avenida. O silêncio da mãe ante o filho cuja alma se vai sem que ela possa reagir (pag.30), é profundo, muito profundo. Felizmente tive um filho sem grandes problemas de saúde, mas sei de quantas mães velam seus rebentos...
O parágrafo da página 33: "Há o corpo  sobre a pista. Morto. Há o desespero da insegurança". Quando há porte, o chão desaba, como se estivéssemos num precipício com o pé na borda, vendo o vazio abaixo. 
Nos movimentos circulares ..."toda paisagem tem em si enxerto das plantas e pedras decompostas... toda tragédia disfarça a impossibilidade da fusão entre homens e deuses...
"Envelhecido em família desterrada/ lembrei o verso e me opus (ao novo):
fui continente/ fui isto/ fui ilha naufragada...
 visto pelo avesso a roupa escolhida para a solenidade (pura rebeldia)
Outro: "Fecho as portas pelo lado contrário. Corro a tranca em atravessada forma: demitido como proscrito no boletim de ocorrência". E adiante: Livre sobre destroços sinto a paz exterior na contenção revolta.
Não vou me alongar mais, porém acabei de ler o livro e terminei pela madrugada. Havia esquecido o lápis (leio deitada, hábito horroroso, mas não tenho sofá e sim cadeiras de braço sem ser poltronas e com problema de coluna, leio deitada antes que o sono chegue.
Fiz uns tracinhos a lápis até a página 140 quando destaquei:"A profundeza o comove: ter estado presente ao ato não o torna proprietário da verdade"
Então como não sou dona da verdade e nem pretendo me apropriar dos teus versos, digo simplesmente: uma obra densa que faz pensar.
Agradeço o carinho e desculpa a demora em comentar.
abraços
maura

FÁCIL



Fácil dizer estou com fome: sempre há alguém
suprindo a necessidade: sal e doce na alegria
com que saciamos nossas vontades e a fome

entender esse alguém que nos supre a vontade
: há de haver o sentido e a caridade no corpo
  exposto do lado de fora da porta de entrada

fazer entrar esse alguém caridoso: momento
em que a tragédia e a mágica mesclam
o assombro e a fome passa rapidamente

o instante se transfigura: há o tempo
errado das preces e de confiar nas sereias
que cantam apenas suas mágoas e dores.

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 8 de fevereiro de 2020

NOITE



Espero a noite
no que tem de bom
o silêncio e os fantasmas
livres da correria diária
no choro das crianças
e na lamentação dos velhos

no silêncio
me reencontro
e me transmito
em versos

calmo e cordato
raiva e ira
espera e chegada
sou a noite
e da noite
retiro os gritos
com que me calo.

(Pedro Du Bois, inédito)


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

CAMINHOS



Fácil reconhecer o caminho
do ladrão das flores
jardins desfeitos
pisoteados

fácil identificar o caminho
do ladrão das cores
pálidas estradas
descoloridas

fácil verificar o caminho
do ladrão dos amores
inundados trajetos
chorosas pessoas

fácil encontrar o caminho
do ladrão das guerras
entorpecidos sentidos
em lenta recuperação.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

FLEXÍVEL



Ser flexível
vergado pelo peso
socialmente exigido
mulher e filhos
parentes
fornecedores
clientes
patrões
amigos

a igreja pede
seu dízimo
o pobre pede
na esquina
o estado pede
sua parte
a vida cobra
sua sina

flexionado ser
verga o corpo
sob o peso
dos anos quebrados
em tantos afazeres.

(Pedro Du Bois, inédito)


terça-feira, 28 de janeiro de 2020

PROCURA



Meu espírito
procura teus pés
os pés são fundos

teus olhos cravos
tua voz é nada
teu corpo o todo
que não se apresenta

presente no que falta
nos fundos à frente
o que não vês
ou sentes

meu espírito
procura tua vida
a vida é curta.

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 26 de janeiro de 2020

TRABALHO


Trabalho
outra tarefa
das tantas iguais
e repetidas

todo dia acorda
todo dia pensa
todo dia escreve

todo dia apaga
o pouco da realidade
que pressente

trabalho repetido
em lendas
nas histórias
(mal)criadas.

(Pedro Du Bois, inédito)


sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

(RE)COMEÇAR


   Erramos o caminho no começo
   fomos em frente sem destino
                 qualquer trajeto nos serviria
   (mesmo) errado como vimos adiante

   sem passagem
   sem paisagem
   sem paragem
   e paradeiro

   água escassa
   animais famintos
   dores pelo corpo
   malditos insetos

   tentamos voltar por onde fomos
                    erramos o caminho
            não estávamos perdidos
        (apenas) não havia sentido
              retornar seria o destino.

   (Pedro Du Bois, inédito)

   

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

HISTÓRICO


O histórico carrega
a nossa vida

organizada pasta
repleta de fatos
(ultra)passados

quem somos
desde o início
o que fomos
nos últimos tempos

traz espaços em branco
onde poderíamos colocar
quem nunca somos: talvez
a verdade da nossa vida.

(Pedro Du Bois, inédito)



segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

meiotom poesia&prosa

Segredos, em:
http://www.meiotom.art.br/dupo19segredos.html

ESTÁTUAS


Mostravam o caminho na ponta dos dedos
apontavam a estrada e diziam por ali
chegarão ao deserto de pessoas arenitos
e encontrarão a cidade de concretas pessoas

não havia alegria no que mostravam
olhavam para trás como a dizer voltem
retornem seus caminhos de vinda
não se curvem ao desconhecido
- mesmo que novo - fiquem
com o que tiveram em vida

avançamos desprezando os sinais
focamos os dedos assinalados
em lugares descobertos ao acaso
teríamos o encontro e desmoronaríamos
estátuas de areia sob a água

eram estátuas os homens arenitos
eram concretos homens as estátuas.

(Pedro Du Bois, inédito)



sábado, 18 de janeiro de 2020

Arcanos Grávidos

Respostas, em:
https://arcanosgravidos.blogspot.com/2020/01/respostas.html


FASCINAÇÃO


Não me convidam para a viagem
nem faço companhia a quem fica

sou sozinho entre sair e ficar
sou aquele que sai sem ficar
                         e fica ao sair

nem lá nem cá
sou fechado em mim
nos sons externos
e murmúrios internos

de tudo dou ciência
de todos sou constante

a viagem não me fascina
quem fica não me fascina

o interior é fascinante
e me pertence.

(Pedro Du Bois, inédito)



quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

BIOGRAFIA


Sua biografia apresenta
as etapas permitidas
pela publicação

muito trabalho
algumas trapalhadas
sucesso

(não lembra a biografia
 de pessoas comuns)

seus olhos encontram
na história o instante
em que o mundo
se revela em si

(não lembra de leituras
 sobre a vida dos vizinhos).

(Pedro Du Bois, inédito)


terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Arcanos Grávidos

Eco, em:
https://arcanosgravidos.blogspot.com/2020/01/eco.html

VENDAS


Vendo a alma
em recorrentes negócios
drogo o espírito fecho os olhos
tenho a paz do momento

dura pouco o meu estado
desperto e o gosto aperta
a boca o estômago o cérebro

vendo a alma
recorro aos negócios
não troco a minha vida
pelo sucesso

dura pouco o insucesso
busco na venda a volta
dos pequenos momentos
de olhos fechados

vendo a alma
o corpo paga a conta.

(Pedro Du Bois, inédito)


domingo, 12 de janeiro de 2020

ENTENDER


Perdido em meandros burocráticos
sou quem não entende a família
como famigerados seres
armados até os dentes

o espetáculo empobrece o espírito
luzes fracas desfocam imagens
e o picadeiro esconde
minha falta de vontade

disfarço o cansaço na surpresa
pelo resultado pífio: a guerra
se intensifica: sou o outro
lado: escuro em mim mesmo

sou em silêncio o passado de glórias
e entrego a bandeira dobrada em leis
antepassadas: sou o primeiro prisioneiro
na árdua batalha em que enterro
os amigos quando vão embora.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

RESPOSTAS



Todas as respostas
constarão do arquivo
que nos será entregue

na sua leitura
gastaremos nossa eternidade

tanto não precisaríamos ter feito
quantas dúvidas não deveriam
                     ter nos consumido
                     algumas maneiras
                     estavam certas
                     incorretas foram
                                 as escolhas

fecharemos o arquivo
como o abrimos: sem
o tempo da conquista.

(Pedro Du Bois, inédito)




quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

meiotom poesia&prosa

Desaparecidos, em:
http://www.meiotom.art.br/dupo19desaparecidos.html

APRENDER

Éramos iguais
fôssemos feitos em série

impacientes
tínhamos a sensação
do novo em repetições

o mundo em nossas mãos
como Carlitos na sátira

éramos todos
exceto os envelhecidos
em pouca idade

nossos fatos
            fátuos
            olhares perdidos
                          no horizonte

tantos foram embora antes do tempo
que mudou nossas palavras.

(Pedro Du Bois, inédito)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

MEMÓRIA


Meu tempo é pouco
antes cheguem
raivosos seres

destruirão o feito
recomeçarão trabalhos
alterarão estruturas
em diuturnos recomeços

antes cheguem
suas picaretas
guardo em olhos
memorizados
a natureza feita

sou memória
destruída sempre
em raivosos atos
de progresso.

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 4 de janeiro de 2020

HORAS

Horas arrastadas
na vida suspensa
em outra hora
com mais tempo
para a passagem

horas arrestadas
à morte que não
as quer de volta

diverte-se com sua angústia
por permanecer vivo a ouvir
o passar do tempo
já sem memória
    sem amor
     sem outra mão
      sobre a sua

horas eternizadas
em quem não vai
embora: quem se repete
    no que repele da vida.

(Pedro Du Bois, inédito)


quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

RETILÍNEO

Sobre a amurada
faço parar o tempo
ontem acontecido
no amanhã entrevisto

parado: hoje represento
a última cena na vista
descortinada da vida
encoberta em ruínas

antes cinzas queimem
minhas asas frágeis

sobre a amurada
suspendo as horas
em que o momento
desfaz a vontade

o corpo pende
retilíneo.

(Pedro Du Bois, inédito)


Revista Cerrado Cultural

Sorrateiro, em:
https://revistacerradocultural.blogspot.com/2020/01/sorrateiro.html