quarta-feira, 21 de outubro de 2020

RETESADO

 








Retesado em músculos

submeto ao espelho

fragmentos da imagem

 

cacos desfragmentados

músculos desperdiçados

 

retesado em arcos

estendo o corpo

              em flecha

              arremessada

              ao destino.

(Pedro Du Bois, inédito)

https://pedrodubois.blogspot.com



segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Modus vivendi

 meu desenho, em:

http://amata.anaroque.com/arquivo/2020/10/pedr

AOS AMIGOS

 








Se meu amigo for preso

como comum criminoso

- eu pequeno burguês

  confesso –

acompanharei o caso

sem ser percebido

e rezarei pela redenção

dos seus pecados

 

(durante a noite assisto

 programas que tratam

da intromissão na vida

de pobres coitados: deixo

o número telefônico e pago

pelo meu voto)

 

se meu amigo for solto

sem que contra ele nada se prove

serei o primeiro a recebê-lo

com votos de que tudo

seja esquecido.


(Pedro Du Bois, inédito)

https://pedrodubois.blogspot.com

sábado, 17 de outubro de 2020

Modus vivendi

 Circense, em:

http://amata.anaroque.com/arquivo/2020/10/circense

CIRCENSE

 








Visito o circo

pela manhã: o palhaço

                   foi ao banco

o trapezista ao mundo

o equilibrista ao dentista

a violinista ainda dorme

 

os animais alimentados

descansam em suas jaulas

 

os homens comuns da cidade

fazem o restante dos trabalhos

 

sentada sob a lona

lendo o jornal do dia

a bailarina procura

algum emprego estável.


(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

QUINTANILHAS

 







 

No labirinto me ajusto

- invento o tempo –

em meandros assisto telas

televisoras de vazios

e me enterneço nas mudanças:

variados sexos recompostos

e o monstro demonstra

suas fraquezas: a morte

me invade e dela retiro

a essência da concordância

 

- não saio daqui

  enquanto as lojas

  estiverem fechadas –

 

perdido em lembranças

a imagem benfazeja do poeta

 

             que passou

             mesmo sendo

             passarinho.


(Pedro Du Bois, inédito)


Modus vivendi

 Tempo, em:

http://amata.anaroque.com/arquivo/2020/10/tempo_3

Desenho, em:

http://amata.anaroque.com/arquivo/2020/10/pedro_du_bois_1


terça-feira, 13 de outubro de 2020

PERGUNTAS

 








Não pergunto

por que nasci: estou aqui

                        e basta

 

a origem 

besta idiossincrásica

  de antenas atentas 

  busca diferenças

    e as encontra nos detalhes

    que fogem aos seres.

 

Pergunto por que estou aqui:

estar aqui responde a todas

as questões anteriores

e definitivas.


(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 11 de outubro de 2020

SONS

 








Quando nada tinha nome

o gesto indicava

cada objeto

         bicho

         trajeto

 

o som grave das cavernas em eco

o som agudo da dor em arco

o som inicial do som destaco

 

                   começaram a diferenciar

                   o pouco percebido: a imitação

                   estabeleceu os versos

                   primitivos do poeta.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

NÃO


 







Não desgosto estar contigo

           comigo o anzol pesca

                        o sol queima o mosquito

                        o mar avança suas ondas

                                    

teu sonho impenetrável

não me recebe e não sonho

no sono que me faz acordado

 

meu livro marca a folha ilegível

e na música – a minha – o tom

agudiza a lembrança: a solidão

contempla de forma amigável

 

estar contigo é aguardar

a hora – que me falta –

necessária ao corte da fruta

amadurecida: reter no copo

o líquido e esquecer o anzol

dentro d’água.


(Pedro Du Bois, inédito)






quarta-feira, 7 de outubro de 2020

RESPOSTAS

 








Alguma vez tive a soberba

de dizer: eu sei a resposta

(a resposta ia longe de mim)

 

estraguei meu dia

com a resposta

errada

 

(encerrei a soberba na caixa 

 lacrada aos pósteros)

 

outra vez quase repeti

como correta a bobagem ouvida

na passagem entre canais

 

(senti a soberba forçar o lacre

 da caixa: sussurros e lamentos)

 

hoje falo sobre o nada com a humildade

inerente – ou falsa – aos pedintes


(a soberba conservo fechada

 na caixa: por livre vontade).


(Pedro Du Bois, inédito)

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

SAUDADE

  








Ausento-me

na medida dos acontecimentos

 

                                  aprendo

                                  repito

                                  repreendo

     não posso ficar

                       longe

                       o desconhecimento

                       me atrela: mar ao barco

                                       ar ao pássaro

 

sem destino driblo o que acontece

em trechos ininterruptos e intermináveis

 

quanto mais me perguntam sobre

todas as coisas menos digo 

do que ainda não sei.


(Pedro Du Bois, inédito)

Modus vivendi

 Desenho, em:

http://amata.anaroque.com/arquivo/2020/10/pedro_dubois

sábado, 3 de outubro de 2020

RUPESTRE

 








Cravo a estaca

quebro a pedra

no começo

 

quedo a pedra

no que mereço

 

cravo a pedra

na terra imerecida

 

cravo a minha vida

na pedra e me revelo

figura conhecida

 

cravo a figura

no mundo

que me sucede.


(Pedro Du Bois, inédita)

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

INCERTEZAS

 


A incerteza da injúria

lançada como rede tecida em cordas

transpassadas pelo espaço vago

vislumbro a certeza atenuada do castigo

desdigo o ditado e me faço em milagres 

cesso o orgulho e esbravejo raivas acumuladas 

nada se compara a estar ciente do prejuízo.

 

Avesso à água cristalizada

do batismo pagão me ofereço

ao sacrifício desde que retirem

de mim a dúvida e façam

em minha mente o desenho

irrecusável do destino.

 

Trago a destreza da mão

no corpo e retiro os excessos

parasitados: a incerteza

concorre ao espírito e consome

a injúria pelos dias.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Arcanos Grávidos

 Bastante, em:

https://arcanosgravidos.blogspot.com/2020/09/bastante.html

SÓCIOS

 








Associado ao doge de veneza

me faço estampa e quesito aberto

em contendas: respondo sobre a água

e o limo invade a casa: retiro da questão

                a lógica e alço a torre ao limbo

                inalcançável da maré entrante:

                  tenho nas mãos as respostas

                e a corda cede no que o corpo

                  ascende ao extrato do ultraje.

 

Sou sócio oculto pela veneziana

entreaberta ao odor lamacento:

minha parte se resume a ouvir

os remos na água e o rumo

sob a água: águas paradas.

 

Na escadaria da casa alagada

ressurgem ratos dados como mortos

e aranhas ditas desaparecidas: o afresco

das paredes cede à umidade e descasca.

 

Debaixo do desenho pueril da oferta

surge indelével a parede nua.


(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 27 de setembro de 2020

SUCESSÃO

 








O senhor daquelas terras

amaldiçoou a cerca arrebentada

maldisse o gado ultrapassado

reclamou a guarda dos cachorros

dos empregados a presteza

à mulher disse horrores

pelo almoço não servido

dos filhos abusou do riso

com que diminuiu a todos.

 

Em cada incerteza brotou

a dúvida ensimesmada

e o senhor daquelas terras

nelas foi enterrado.


(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

DEPOIS

 








Depois: irmanado em tanques

de tiros desajustados invado a obra

e retiro dos escombros o motivo

preso ao desafio de pazes descumpridas.

 

Declaro guerras aos insanos tímpanos

insistentes em músicas e letras no artifício

de transformar barro em coisa: coisificar

a pedra: estátuas acompanham a passagem

e me entregam com a falta de respeito: quieto

e saliente permito o passo da conquista.

 

 Depois: interrompo a luz e me desfaço na poeira.

 Exalo suspiros de vingança e ao perceber a falha

 pego no ar a fragrância daquele corpo de mulher.


(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

CHEGAR

 








Peço desculpas

pela maneira amarga

com que sou acolhido

 

     o gesto recolhido ao mínimo

     necessário: o olhar perdido

     pelo corpo: a voz inaudível

     dizendo algo

 

                  chegar exige vontade

                  e a necessidade

                  adensada no caminho.


(Pedro Du Bois, inédito)

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

BASTANTE

 








Basta

- no arremedo improcedente

  das ausências me apresento

  à luta: ponto

 

sou o novo soldado

engajado em guerras

vespertinas: compro

 

repentinamente a hora cheia

avisa sobre o corpo: velho

 

a mecânica do mundo estraçalha o sono

o aviso na porta indica a saída

 

basto em mim mesmo

que essa luta não é minha.


(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 19 de setembro de 2020

ARDER


          


                








               No peito
                   o ardor
                   com que a entrega
                   se faz rubra
                   em cores de paixão

            consumir
             e ser consumido
               em arroubos

         roubar ao coração
         a razão da entrega

a irracionalidade amadurecida
no cadafalso: viver
o instante e nada receber
em troca.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

INFINITA













Infinita hora
dos discursos: o povo vota
em depósitos entreabertos
no que chamam participação
em gesto democrático

            aciono a tela e a deprimo
            em teclas enumeradas
            com fotografias antigas

    emerge a conversa fiada
    e troco um pelo outro
    - de mesmas coisas.

Assino a folha e me declaro
afirmação errônea
do destino: o infinito
refulge nuvens
maquiavélicas.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 15 de setembro de 2020

OUTRO













Outro se faz em ventos
redemoinhos e calmas brisas
alisam a terra em que a poeira
deixa rastros: outro altera
a direção e o percurso
aplaude o percorrido em ofertas
de bons dias: outro se faz ingênua
loucura e espantalhos falam
de ouvidos anteriores: antes havia
o tempo disponível ao encontro
das línguas atravessadas em beijos.
Outro desfaz os nós e desenrola
a corda amarrada ao cadáver.
Após o tempo a hora se perpetua.
Outro retribui o gesto acondicionando
láureas vencidas no ódio estremecido
ao ganhador do ócio: outro esquece.

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 13 de setembro de 2020

SOMBRAS













A sombra projetada
                
                 (solo retirado
                     ao encontro)

               esconde inverdades

               (solo recomposto
                   sob os passos)

              reaparece em luzes
             
              (solo reapresentado
                  enquanto sombra).

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

DIZER













Dizem
de mim: pródigo
              filho
              retardatário

e me negam abrigo
e me negam afeto
e me negam o direito de ter ido

                        embora não tenha
                        feito sucesso
                        nem ficado
                        rico

retorno ao convívio
na hora aprazada
ao regresso

              não me neguem o tempo
                                       decorrido.

(Pedro Du Bois, inédito)


quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Modus vivendi

Alimentar, em:
http://amata.anaroque.com/arquivo/2020/09/alimentar

CERCAS




Fragilizo a cerca e com passos rápidos
encerro minha carreira: o esconderijo guarda
o medo ressentido no vento contra os vidros:
aguardo o tempo anunciado e do escuro
saio assustado buscando
 na distância a cerca
onde me instalo: o vento geme a minha dor
desacostumada: o ar gira o grito desumano
em que perco as lembranças: fortifico
a cerca com incertezas: escondo a lágrima
e com o rosto seco saio ao relento:
ouço a voz do irrealizável: abro
a cerca ao farpado arame
e deposito a carne: encerro a vista
em lamentos: a tormenta se afasta.

(Pedro Du Bois, inédito)

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

INERENTE













Ao braço longo da lei
                o rei
                insensato
                fala sobre casamentos
                em famílias descrentes
                do holocausto

           além da ideia
           a semente em terras
           inférteis incendeia
           o grão

o príncipe sente a tormenta
na proximidade da costa

            o galho perde a fruta
            e o verme se entranha
            em meandros oferecidos

a rainha em falsete
gera em pirueta sua ideia
infeliz: pão sobre a mesa.

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 5 de setembro de 2020

INVENTÁRIO













Do que me é dado: do contrato a cláusula
do distrato a causa das razões a lei da dor
a sensação de fazer além do exigido do saber
reler as instruções do amor retornar no pranto
o lenço seco da paixão: do viver aqui estar

          enfrento o dia de amanhã e permaneço
          presente em minhas situações

                       rasgo a incerteza do passado
                       e me apresento na repulsa
                       com que os olhos enxergam
                       os poucos conhecidos.

Almoço na hora certa e na descoberta
me faço desconhecido: não acrescento
ao contato o sentido da pele ressecada

                        do nascimento a morte
                        do instante a distância
                        no outono a retirada

     Do que sou retirado sobra
     a marca tatuada da verdade.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

LUZES














Sou o último
apago as luzes
fecho a porta
jogo fora a chave

não sou retorno
       nem entorno

em torno teço
estrelas unificadas
em destinos

deixo (nada autorizado)
escrito o último suspiro
e no cantar
o som se faz cíclica
                      resposta ao iluminar
                      o trajeto

(as luzes ainda acesas).

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 1 de setembro de 2020

ALIMENTAR














Ser a alimentação
na leveza da crueldade
implícita no gesto
de arrependimento

(a palavra evocada
 em agradecimento)

o corpo consumido
no anseio da inverdade

as verdades oferecidas
em objeção e reprimenda

o antepasto sucedido
pelos acontecimentos.

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 30 de agosto de 2020

LINHAS













Realinho a linha de defesa
                  quero o combate
                  onde corpos
                            livres
                            das convenções
                                      se abatem

ataco o sentimento imorredouro
da liberdade: sinto o debate
arrefecer em tantos embates

(Longe as luzes do circo
 anunciam o espetáculo
 de noites repetidas).

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

MAGMA













Sobre o assunto
assunto o oráculo
no feérico instante:

sem resposta
sou oposto ato

reflito na pedra
o veio estratificado

sei da vida inacabada
da montanha magnífica
quando aflora.

(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

LOUVAR












Louvar as armas
            (signo referenciado)
            a carne
            (sinal diferenciado)
            o cerne
            (animal introspectivo)

desconsiderar o crime
                       anoitecido
                       e nas horas claras
                                      implorar
                       ao indireto objeto
                       o seu desejo
                       (intempestivo).

(Pedro Du Bois, inédito)

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

ABISMO




Abismo: o gesto repetido acaricia
o corpo solto entre o começo e o final
do enredo: último suspiro

abismo: excede na música o silêncio
e se alarma: a constante invariável
da entrega se refaz no gesto repetido

abismo: refeito em gestos se aproxima
em queda e no fundo sabe do encontro

abismo: afoga sua mágoa em águas
translúcidas e na coragem cria instantes
arvorados e empedrados: solidificados.

(Pedro Du Bois, inédito)

Modus vivendi

Bondade, em:
http://amata.anaroque.com/arquivo/2020/08/bondade

sábado, 22 de agosto de 2020

Pavilhão Literário Cultural - Singrando Horizontes

7 poemas, em:
https://singrandohorizontes.blogspot.com/2020/08/pedro-du-bois-poemas-escolhidos-7.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed:+PavilhoLiterrioCulturalSingrandoHorizontes+(Pavilh%C3%A3o+Liter%C3%A1rio+Cultural+Singrando+Horizontes)

BONDADE













Sobre a bondade. Reflexo espelhado
                              do tempo: roubo
                              o espaço e o detenho
                              à frente do espectro:
                              esperto agente gentios
                              expostos gêmeos
                              separados no aporte
                              do barco ao porto: deslizo
                              remos em águas
                              de malefícios: o mal estar
                              da bondade na fronte franzida
                              por estar sozinho na gravidade
                              da presença reposta ao ato.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

INVENÇÕES













Invento o tempo das respostas: respondo
todas as perguntas: interpreto no texto
o avesso do poeta: a publicidade escapa
do controle na pergunta e se faz verdade
consumida em tolo dia de respostas

altero o sentido em respostas
amplas de argumentos parcos
                                 restritos
                                aos sofrimentos
                               aflorados
                              à mente

minto as perguntas banais
da sobrevivência e me auxilio
da leitura quando nas respostas
                a invenção consome a hora
                em que devia estar dormindo.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 18 de agosto de 2020

DO PÃO












O pão que repartimos
é mais que o pão: alimento
diário por estarmos juntos
no tormento de limparmos
do chão os farelos

estar contigo é o pão
repartido: farelos caídos
e cascas em pedaços

contigo o pão se transubstancia
em nós e nos alimentamos
um do outro

retiramos as cascas
e nos esfarelamos
ao solo.

(Pedro Du Bois)


domingo, 16 de agosto de 2020

PRESENTE












Apenas
o presente
ultrapassado
no instante
seguinte:

        o presente é passado
        inalcançável ao gesto
        de retenção e gosto

o desgosto solidificado
no que guardamos
como lembrança.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

MINHA












Na terra desconheço o homem
que passa: hirta flor
                  despetalada

apresso o passo
em reconhecimento
a terra espaça
o desconhecimento

pátria: exílio involuntário
no desterro não comprometido
aos saberes

ultrapasso lugares idênticos
e ouço as vozes alteradas
em meses desvirtuados
em dias aumentados
de horas definitivas

na minha terra o desconhecimento
ensina mazelas na miséria exposta
pela falta probatória da cidadania.

(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

ABALO












No abalo do planeta
tremem corpos
abandonados

seres irreconhecíveis
transitam
suas pragas
        praguejam
        a memória
        existente

céus e terras
fogo e água

elementares consequências
sobrepostas ao latir do cão
preso no apartamento.

(Pedro Du Bois, inédito)

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

DIZER












Digo: luz dos meus olhos caminho acesa
vela do desvelo olhar absorto dos amores
comida em beijos subtraídos corpo
desvalido em ofertas reforçadas
ao tédio do dia de ontem

digo: estrela vespertina estrela
matutina estrela beijo recebido
beijos possuído no calor da noite
noite benfazeja em dormires e
acordares recentes na madrugada

digo: refrega esfrega obriga o destino
         em testamento consome os trinta
         e nove dinheiros em diárias baratas
         dos hotéis desfeitos em novembros

digo: luz dos sentidos olhos sobrepostos
mãos inseridas em profundos bolsos
seios oferecidos corpo retesado
consumo excessivo de inverdades.

(Pedro Du Bois, inédito)


sábado, 8 de agosto de 2020

LATIR













No latido o cão em fantasias
sofre a descontinuidade

(o olhar assume a sua condição)

latir a carência anuncia o medo
irrestrito ao fechamento

(cães presos gritam a liberdade
 vislumbrada pela memória).

(Pedro Du Bois, inédito)


quinta-feira, 6 de agosto de 2020

CHEGAR


Roupas sapatos artigos
de primeira necessidade
o caderno entreaberto
na página demarcada

o esquecimento pressupõe
vontade: esquecida
no esmaecer
da imagem

não reconheço a pessoa
que fala assuntos desconexos
não compreendo a amplitude
do relógio: refaço a bagagem
e a deixo sobre a cama

o que esqueço se transforma
em futuro reencontro.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 4 de agosto de 2020

VOZES












Sons anunciados nas tempestades
argumentam frases concatenadas
                               : convergência

calo o tom amadurecido
e me anuncio em textos
           : vozes diuturnas
          lamentam a sorte

(nada falo da sorte calada
 na fortuna com que ouço
     as vozes se afastarem)

argumentos assinalam a tentativa
: a divergência atenua a igualdade.

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 2 de agosto de 2020

ENCERRAR












Encerro o riso
entorno o pão
esfarelo o vinho

gotas despossuídas
cercam o pano
deixam marcas

destampo a vasilha
e o cheiro realimenta
o instinto: do que sou feito
                 ressurge a ideia
                 primitiva no pão
                 e no vinho
     de tingido espírito.

(Pedro Du Bois, inédito)


Modus vivendi

Desengano (e ainda), em:
http://amata.anaroque.com/arquivo/2020/08/e_ainda

quinta-feira, 30 de julho de 2020

FORMULAÇÕES












Ignoro a fórmula.
Faço compras aleatórias
e as anoto em despesas
generalizadas: reformulo
                         desinformo
                         não informo
                         conformo

aos pósteros deixo dívidas
impagáveis. Aos próximos
prometo juros e multas.

Inúteis fórmulas
desacompanhadas.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 28 de julho de 2020

HABITAR














Apresentados os hábitos
habito a história: o cacoete
o fetiche o medo imorredouro
do adjetivo e as reticências
fazem água no descompasso
do latido. O eleitor de pijama
pensa o mau tempo ao levantar
se vestir e ir à urna eleitoral
depositar sua humilde
e despretensiosa vontade
de manter tudo como está.

Talvez o café com pão
amanteigado antes
que o médico proíba.

O arrazoado estéril das questões
incompletas e os substantivos
transformados em superlativos
adversários. Cingir a cintura
da dama e a levar nos passos
cadenciados da dança.

Dormir com a janela aberta
e ter o desconforto da chuva
molhando o tapete: atapetar
a casa no rápido passar
dos passos nas tábuas
silenciosas dos quartos.

(Pedro Du Bois, inédito)



domingo, 26 de julho de 2020

REVIVER












Avalio o sentido: se da morte
                           sou safado
                           em linhas
                           costuradas
                           ao corpo

          ressurjo vivo
          revivo o instante
          e o gesto não se repete

avalio as pessoas e digo
de travessias e do relógio
parado na penúltima hora.

(Pedro Du Bois, inédito)