sábado, 11 de junho de 2011

O DIA (A)FINAL

A música percebida na dança
de inigualável (adjetivo) graça
casual do encontro. Dança o ritual
dos poetas na finalização espectral
do ser: o verso ritmado ao longe
e o perto absorto em lugares desfeitos.

         Constante música antecipada
         ao combate e à entrega.

(Pedro Du Bois, O DIA (A)FINAL, 3, Edição do Autor)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O NASCER DOS ARES E DOS PÁSSAROS

O gosto sobre as questões responsáveis, escuro
tempo das tentações na limitação a baratear os corpos
e extrair a seiva e o seixo caído sobre a estrada
onde passa - sim, um dia - ao encontro dos desgostos;
pássaros aziagos e entremeios em choros;
choupanas de serenas faces; olha e observa
o encontro da água com a terra: margens sabem
a limitação das coisas; o choque e o amainar das paixões
servis de espíritos menores; menores os temporais
deixados para trás; o futuro aumenta as possibilidades
de ser novamente criança, vinda das séries
mentalizadas: fadas e gnomos, os gomos da laranja
como se mordiscam as frutas, o sumo escorre
pelas vestes, pestes invadem espaços e cores
impressionam a tela - branca e imaculada - como
vozes em gargantas estanques de súbitas
orações e oradas; silvestres espíritos dos deuses
descorados, descoloridos, desesperados em predições;
não se vá, dizem as vozes, fique e participe do sacrifício;
insentatos sacrilégios na abertura ao novo, o engodo
com que castigam os cegos; repete o verbo,
simula canções de outrora sem o tom certeiro.

(Pedro Du Bois, O NASCER DOS ARES E DOS PÁSSAROS, Vol. I, Edição do Autor)

terça-feira, 7 de junho de 2011

A NECESSÁRIA PARTIDA

Aceno no reconhecimento ao adeus
do pranto: ir embora no rompimento
amigável e hostil do ato de partida

aceno e evito olhar o passado

esqueço o travo e desconsidero a hora
que partir é mergulhar o horizonte
ao fosco cansaço do corpo presente

refaço trajetos em acenos
e revolto o corpo

(sonhos permanecem nas paredes
 onde insone passeio minha vontade)

não aguardo: ofereço a entrada
e desapareço na estrada. Pago a passagem
no suor da espera e me reconforto no trajeto

(lembro a imagem errante do espelho
 e me pergunto se há outra reflexo)

ir embora na culpa de não ficar:
reflexiono sentimentos e me faço inteiro
na oportunidade do aspecto e no despropósito
entrevejo a bruma e no escuro tempo
sou louco
         cego
           surdo
              mudo desalento

(trancado em anos esgano a vontade
 e faço do pássaro o espaço vago
 na utilização do corpo)

volto ao tempestuoso dos que ficam
em andarilho trajeto na cristalização da terra

os pés na escalada: cair e levantar
na necessária alteração da dificuldade

(deixo folhas em veredicto: palavras
 não suprem o necessário ver o mundo
 com meus olhos)

ergo o punho em vingança: sair
avantaja o ser aos que ficam.

(Pedro Du Bois, A NECESSÁRIA PARTIDA, Vol. I, Edição do Autor)

domingo, 5 de junho de 2011

DOS AMORES

     Não estamos juntos
cama vazia
sem teu perfume
e cheiro.

Ainda ouço teus gritos
dilacerados em xingamentos.

Discussão atoa
como todas
quando principiam.

Teu dedo em riste
       tua mão sobre a minha face.

Não há sentido na agressão
sofrida: nossa punição.

(Pedro Du Bois, DOS AMORES, 21, Edição do Autor)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A ÁRVORE PELA RAIZ

Sente passar
o tempo (altura e peso)
e fica no solo o instante
desproporcionado.

Sente o tempo ofertado: a raiz
espera a tempestade.

(Pedro Du Bois, a Árvore pela Raiz, 3, Edição do Autor)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

TRÂNSFUGA

Alguém em quem encostar o rosto.
Carícias e beijos.
Quem não me fere a face
           apenas alisa meus cabelos.

Mesmo com as mãos paradas
move o corpo e desalinha a roupa.
A paixão derruba barreiras
e eterniza o gesto.

Banal o sentido: estivesse
                 a face tão perto.

Voracidade e vivacidade.
Último beijo ante a fuga:

             trânsfuga de poucos horários.

(Pedro Du Bois, DAS DISTÂNCIAS PERMANENTES, Edição do Autor)