sábado, 14 de julho de 2012

RITOS

Atravesso a ponte
na água solto as amarras
desço o rio
          amarrado ao bote
          que destroça

sob a ponte
ultrapassada

retornam pedaços flutuantes
e bóia o corpo encharcado
enquanto a ponte permanece
                             intacta.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

TERRAS

O mar atravessado
circula a terra conhecida

portos encontrados
acolhem corpos fixados

ao futuro dedica o brinde
da chegada: presente
no instante  aterrado

o mar repele o corpo
do afogado: cabe providenciar
pássaros que o bicam
em ossos estalados

ao futuro cabe o agradecimento
representado na terra continuada.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 10 de julho de 2012

PRISÕES

Após o primeiro cárcere
diminuto em metragem
vislumbro o próximo
ampliado em significados

o infindo horizonte
desenha a cela
onde trancafiado

o telescópio demonstra
em imagens a certeza
de ser prisioneiro

acelero minha velocidade
de deslocamento: entre celas
                             faço de conta
                             estar livre.

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 8 de julho de 2012

ODISSEIA

O trabalho enfeita
o espaço: a nave
                circunda o mundo
                               conhecido

o astronauta sabe do retorno

                  suas pernas
                  doem na liberdade
                                corpórea

o tempo
cessa a passagem

                    o astronauta
                    - ínfimo personagem -
                    desliga o texto
                                 o ar
                                  a luz
                                   o contato

sobre o trabalho feito
repousa o personagem.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 6 de julho de 2012

PASSAGEM

No vigor dos anos passados
em branco
      esquece o corpo
      aos cuidados amorosos
                     das manhãs

ao homem envelhecido
de saudades sobram imagens
opacas de mulheres

o branco dos cabelos
sentencia o olhar
esbranquiçado
das amantes
      (desconsideradas)

o homem idoso
desconsola o corpo
em memórias.

(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 4 de julho de 2012

SONHOS

A lembrança
encanta: decantado mundo
inexistente do passado

(a fulguração da cena
desconcerta: música
paralisada ao ouvido)

diante do quadro estático
se destaca

se adianta ao tempo
e perpassa

(a desfiguração do corpo
contra a luz)

restitui a lembrança do esquecido
gesto não realizado: nos sonhos
a incompreensão dos fatos.

(Pedro Du Bois, inédito)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

SIMPLES

Simples questões não respondidas: de quantos
Passo Fundo fomos feitos nessa geração
efêmera. Os que foram embora,
os que ficaram, os que retornaram.
Aqueles que se recusaram.
Os que morreram.

Passo Fundo nos reconhece e atrai. Impõe
e dispõe no espaço ampliado dos caminhos:
o boqueirão aberto ao passo, o cemitério
ultrapassado, o sexo reavido ao acaso.
Antigas estradas e territórios cedidos
em concordata. No desmembrar
permanece como história
e mentiras amenizam
os fatos encobertos.

Simples quesitos impostos a cada um de nós,
do Passo Fundo remexido em praças
transplantadas, prédios demolidos,
passados desfeitos, antigos feitos
desconsiderados.

No Fundo, o Passo alivia a fuga
e o corpo se volta no passar do ônibus,
curva-se ao avião que sobe, recusa-se
ao trem inexistente.

Questionário incompleto, repleto.
Reflexo da imagem nas águas
impuras da praça.

(Pedro Du Bois, inédito)