domingo, 13 de outubro de 2019

CUMPRIMENTOS

Golpes
desgovernam
estados
estratificados

revoluções
reiniciam
estados
em outros
princípios

democraticamente
sistemas políticos
barganham votos

no final da fila
nós sempre
esperamos.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

CONFINS

          Confinados
      neste planeta
      não errante

            de horas repetidas
      em estações repetidas
          com ciclos repetidos
             dos dias bissextos

 conseguimos ficar
      afastados
            hostis
desconfiados
  beligerantes

a morte vence a razão
e corpos são decompostos
em poucas lágrimas.

(Pedro Du Bois, inédito)   

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

DIA ANTERIOR

O dia anterior
           (exílio)
esconde a memória
antes que seja apagada

a força
escurece o horizonte
e em branco e preto
avista o último lampejo

a hora some em nuvens
sem raios e relâmpagos
no dia anterior que antecede
a lembrança sobre os atos.

(Pedro Du Bois, inédito)


segunda-feira, 7 de outubro de 2019

ROTINA

Na passagem
o estreito caminho
de todos os dias

obstaculizado
na mediocridade
rotineira

no chuveiro com água quente
lava o cheiro do escritório
apaga o que a mente
trouxe de fora

fechados caminhos revistos
em cada ação decretada

pouco de amor e carinho
após encerrado o jantar.

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 5 de outubro de 2019

ANTES

Um dia antes
deixarei o corpo descansar
na cama até a última hora
antes do banho farei a barba
usarei a melhor roupa

um dia antes
acordarei mais tarde
antes de levantar ficarei
com os olhos fechados

um dia antes
saberei chegar a hora da despedida
não estenderei a mão nem trocarei beijos
de longe acenarei aos transeuntes

um dia antes
ficarei estático na casa
até que o nada consuma em mim
o pouco que restará da passagem.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

ESTRELAS

Os que virão após
estrelas novas
não nos trarão reforços
estrelas vazias
não nos trarão novas
estrelas escuras
não nos trarão notícias
estrelas ocas
não nos trarão vidas
estrelas mortas

os que virão depois
não nos trarão amor
estrelas frias

e sumirão nas luzes
dos primeiros sóis.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 1 de outubro de 2019

FERAS

Meço a distância que me separa da fera
que sabe no distanciamento o medo
do que nos separa naquela hora

vou ao seu encontro e a fera recua
no primeiro instante: seu instinto
a faz recuperar a postura ferina
com que seus olhos brincam
em dentes brancos quando
o corpo ágil arremete
ao meu encontro

sei da sua força
                agilidade
                 malícia
e do impacto do seu corpo
sobre a minha queda

seus dentes na minha carne
e suas garras dilaceram

não há distância entre a fera e eu
somos aos mesmo tempo único corpo
no chão rolado em sujeira e sangue

a fera me abestalha quando a humanizo
e com meu corpo estraçalhado assumo
seus olhos e são meus seus dentes

permaneço na fera em segunda pele
ela se debate querendo se livrar
do incômodo hóspede que a assume
com corpo e alma humanizados: duas
                 feras abestalhadas e soltas.

(Pedro Du Bois, inédito)



Revista Cerrado Cultural

Ventos, em:
https://revistacerradocultural.blogspot.com/2019/10/ventos.html

Traição, em:
https://revistacerradocultural.blogspot.com/2019/10/traicao.html

Modus vivendi

Ventos, em:
http://amata.anaroque.com/arquivo/2019/10/ventos

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

A Revelação como Máscara e outros poemas


por W. J. Solha


Sobre A REVELAÇÃO COMO MÁSCARA, do novo livro de Pedro Du Bois, O VENDEDOR DE CADEIRAS, publicado pelo Projeto Passo Fundo. 






A ilustração é um quadro meu, de que me lembrei ao ler isto, nessa parte da obra:
-
Gosto de usar na máscara o irrefletido:
a opacidade anteposta ao papel
desenhado no esboço e o gesso
na morbidez do rosto
condenado à decomposição.
-
OK.
Há anos acompanho a produção de Du Bois. E esta me parece banquete pra psicólogos, psicanalistas, psiquiatras e assemelhados, e pra críticos literários de melhor estirpe. Uma de minhas resenhas sobre obras anteriores do poeta gaúcho, teve – a propósito - o nome de ENIGMA DU BOIS, aqui bem mais denso, até, do que o ENTRE MOSCAS, do Everardo Norões, por que, na maioria das vezes, venceu-me. Como se fossem partes de um nouveau roman – que tinha foco nos objetos, não nos personagens – os três primeiros títulos desta edição constam como “O Vendedor de CADEIRAS”, “A Revelação como MÁSCARA”, “TUBO DENTIFRÍCIO”.
Veja que sacada:
-
Ao velarem os mortos
colocam cadeiras
junto ao caixão:
-
Corpos assentados
inclinam as mãos
sobre as bordas
os olhos choram o corpo
deitado
-
Nas outras partes do livro, tem-se achados como este:
-
TUBO DENTIFRÍCIO
-
Aprendo a escovar os dentes
antes que o almoço
me devore.
-
Mais em frente:
LEVIANA HISTÓRIA DE UM SE NHOR URBANO
-
Sonha em se tornar artista
sobre o fogo: retirar do coelho a ironia
da cartola.
-
E, como se – malevolamente – gozasse com meu novo livro – VIDA ABERTA
(Tratado Poético-Filosófico ):
-
Entediado. O filósofo repete
em novas palavras a sua velhice.
-
E:
-
Simplifica em termos
eternizados o que não foi
dito.
-
OK.
Mas o centro do volume, parece-me, é a REVELAÇÃO COMO MÁSCARA, em que a gente pensa logo na fábula de Esopo, “A Raposa e a Máscara Trágica”, em que a zorra dá com esse assessório do teatro grego, deslumbra-se com sua beleza, mas se decepciona com o vazio atrás dela. Em seguida vamos direto à Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, ao Arquétipo Persona, onde se observa o sujeito com a possibilidade ou necessidade de criar personagens ( persona: máscara, em latim ) que podem não ter nada com ele mesmo: o papel público que o ser humano se sente forçado a apresentar.
Du Bois não é um poeta exatamente feliz com a condição humana, com as tais máscaras ou não:
-
Nem o vazio
Se revela. Nem a revelação se esvazia.
-
Ou:
-
Escondo a máscara sob outra máscara
-
E isto que se segue vai pra uma tácita angústia kafkiana , como em O PROCESSO:
-
Sobre a minha vida despejam culpas assumidas
em lágrimas de arrependimento. Não me dizem
o crime cometido.

-
OK, de novo. Porque triste, mesmo, são estes versos de SILENCIAR:
Dias (são assim)
calados em tardios
anoiteceres. 

-
Como eu disse, não se trata de prato cheio, mas de banquete para os estudiosos da mente humana, inclusive críticos literários do porte de um Hildeberto Barbosa Filho.
Fica a indicação.


domingo, 29 de setembro de 2019

VIAGENS

Levamos nossas vidas mesquinhas
perambulamos nossos fantasmas

esquinas repetem
a sucessão do passado
em que as curvas escondem
o futuro em novas paisagens


estamos
encaramujados.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

MUDANÇAS

A mudança acompanha
a história: nada e glória

decadente companheira
na jornada que medeia
(já) sem entusiasmo

a metamorfose
completada nas asas
libertadas ao sol
que ilude a tarde

na decadência o retorno
com cabelos revoltos
de antigas ventanias

as mãos afastam
as tempestades
em que se transforma.

(Pedro Du Bois, inédito)


quarta-feira, 25 de setembro de 2019

HERÓIS

O horror da guerra recontado
na mesa do bar: bravatas
e homéricas pilhérias

braço sobre o encosto
aproxima o corpo
e no ouvido estala
a língua o tiro de canhão

fuzila com os olhos o comentário
atrevido e revida o ataque
com perfídia: emudece
a plateia na simulação
do estampido

o braço aperta o corpo
ao lado: fosse o inimigo
subjugado no golpe
em que a lâmina rasga
o pescoço repassado
com experiência e glória

detém o amigo que se despede
ao ir embora: sugere nova
rodada mesmo que em outro
local: ainda é hora

sozinho
o desalento invade
seu corpo e alma: os olhos
tentam apagar o passado.

(Pedro Du Bois, inédito)


                   

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

FERIDA

A ferida sangra o corpo atingido
o sangue escorre o passado
esconde a mágoa do amor findo
no amoroso corpo desprezado

a ferida sangra a dor recolhida
o sangue corre na veia atingida
escolhe a raiva no amor atraiçoado
em amoroso sentido vilipendiado

a ferida sangra o espírito refletido
o sangue recorda o louco estampido
recolhe o amor no corpo abandonado
em amoroso recorte rasgado.

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 21 de setembro de 2019

DESFRUTE

Em desconexo sentido
a figura sem concretude
sobe pela parede
foge em desconcerto

traz o mundo no jornal
cortado e colado ao solo
na delimitação do espaço

despertada angústia
na figura desconsertada
que se rebela ao espaço
em canções aventuradas

despudorado futuro
rarefeito em desculpas.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

DESCOBERTA

De outras terras disseram os aventureiros
descreveram paisagens
           disseram dos nativos
           insinuaram o ouro
                           e a prata
                           que poderiam encontrar

trouxeram selvícolas para agradar a corte
trouxeram o tabaco a ser fumado
trouxeram o cacau a ser torrado

não trouxeram doenças que lá não havia
não trouxeram ratos que lá não existiam
não trouxeram sonhos que lá não sonhavam

levaram as doenças os ratos os sonhos
conquistaram: tornaram-se senhores
exterminaram os povos
       exauriram os metais
       chamaram de novo mundo.

(Pedro Du Bois, inédito)