quinta-feira, 19 de setembro de 2019

DESCOBERTA

De outras terras disseram os aventureiros
descreveram paisagens
           disseram dos nativos
           insinuaram o ouro
                           e a prata
                           que poderiam encontrar

trouxeram selvícolas para agradar a corte
trouxeram o tabaco a ser fumado
trouxeram o cacau a ser torrado

não trouxeram doenças que lá não havia
não trouxeram ratos que lá não existiam
não trouxeram sonhos que lá não sonhavam

levaram as doenças os ratos os sonhos
conquistaram: tornaram-se senhores
exterminaram os povos
       exauriram os metais
       chamaram de novo mundo.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 17 de setembro de 2019

ILHA

Mística ilha
onde mantenho
               meu passado
               meu degredo
               meus segredos
               meus instantes

isolados
incólumes
desterrados

submerso futuro emerge na onda
em que afogo as lembranças

o mistério escorre
outras águas.

(Pedro Du Bois, inédito)


domingo, 15 de setembro de 2019

INCENSADO

Queima o incenso na sala
em conversas de pouco dinheiro
e exames médicos: horror do herpes
e suas sequelas. Danada doença
que o incenso queima
                        tosse
                        afoga
                        as mágoas
em instrumentalizadas
músicas. Não fala do cansaço
nem do casamento incerto
de errados tempos incensados
enquanto escurecem vidas
e na televisão preparam
o noticiário. Lembra
o cronista e suas palavras
ecoam sem respostas.
O aroma do incenso
na mesa e a mesa
posta. Aposta o jogo
em seu resultado
que não altera
a história: apenas
a repetição de campeonatos
anteriores e do que o médico
disse na consulta passada.
O incenso termina de queimar
e a conversa morre na sala.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

DIAS POÉTICOS

O poeta troca a nau
pelo carro com que parte
para o nada como se fosse
a nova odisseia em paradas
de programadas baldeações
ou troca de sua nave

o carro circula estradas
em autovias sinalizadas
- onde a placa do labirinto? -
de faixas aéreas pré-determinadas
em que o gps marca a posição
exata de sua perdição terrestre

o policial solícito diz da próxima estrada
o agente turístico - sorridente - diz do hotel
aproximado e o poeta cansado pede
que alguém carregue a sua bagagem
e solícito
e sorridente
entrega ao carregador a pequena nota
vil e financeira de sua última rima
versada antes do banho.

(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

CIVILIZATÓRIO

A água pura
não era escura
como agora
na civilização

o floresta pura
era escura
antes de chegar
a civilização

a mente humana
clara e escura
carrega consigo
a civilização

a civilização
em lusco-fusco
é fogueira
sem imaginação.

(Pedro Du Bois, inédito)



segunda-feira, 9 de setembro de 2019

DEMÔNIO

 Ah o demônio
rubros olhos
traduzem
a maldade
   inveja
   ruindade
 
   vontade ocultada
   de nos travestirmos
   e sermos a ameaça
   que impõe o medo
   e expressa a raiva

quem escreve textos
sobre o bem eterno
em respeito pelos seres
na inteireza do lucro.

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 7 de setembro de 2019

TOLOS

Tolo
são tolos
os sentimentos
expressados
onde não existe
receptividade

tolo
somos tolos
sentimentais
apressados
querendo a seiva
de seco tronco

tolo
sentimentalismo
impresso
em páginas e páginas
de velhas palavras.

(Pedro Du Bois, inédito)