quarta-feira, 21 de novembro de 2018

PERPLEXIDADE

No encadeamento das ações
busca sentido na vida civilizada
em algo que demonstre a razão
                          para estar aqui

na incompreensão do acontecido
sua perplexidade pelos fatos
             não fazerem sentido

busca na matéria conteúdo
e força para compreender
o mundo fisicamente. Algo
           que una em costuras
                    a parte poética

na incompreensão dos ciclos
sua perplexidade repassa
as fases terrestres e também
           não encontra sentido.

(Pedro Du Bois, inédito)

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

VIAJANTES

Atravessa a terra
de lado a lado
em todos os transportes
e inúmeras linguagens

pelos ares de contornos meridianos
pelos oceanos de águas profundas
pelas terras de compostas estrelas

visita palácios tumbas
templos oásis

está nos cabarés
nos templos
em balneários

volta como sai
pouco menos de fome
algo mais entediado.

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 17 de novembro de 2018

MESMOS VERSOS

Quisera fazer versos
com palavras exatas
de enriquecidas rimas

quisera usar a métrica
em versos e versos
de mesmos espaços
a engolir letras
em desalinhados
apóstrofos

quisera sentidos alternados
no abusar das folhas vagas
ao saber corretamente
desenvolver o mote

quisera riscar clássicos
ao lembrar palavras
escritas no esgar
dos mestres: destruir
o futuro sem ousar
conflitar o presente.

(Pedro Du Bois, inédito)


quinta-feira, 15 de novembro de 2018

XEQUE

Movimentadas
as peças se imobilizam
no tabuleiro de restritos
caminhos em fechadas
passagens de bispos empedrados
             em torres sem permitir
             saltos cavalares

pobres peões responsabilizados
pela realização das estratégias
reais: à frente
          avante
         en passant

na mobilidade da rainha
entre idas e voltas de rápidas
passagens reside a cidadela
do rei limitado em passadas
indefesas pelo antecipado
lance de republicana ação.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Tristeza e Mínimo e a Menor Parte - resenha de Márcio Almeida

 Meu caro Pedro, boa tarde:
em seu livro TRISTEZA E MÍNIMO E A MENOR PARTE você assume: "frases desconexas aludem descobrimentos" (p.97); que "o poeta sobrevive mazelas e se dá ao luxo de redescobrir polvorosas maneiras desmentidas de versejares" (p.92); ou então faz a assertiva: "reflito o imponderável."
Estas leituras permitem usufruir melhor de sua criação poética, que na 1a parte do livro tem poemas como os de números 5 ("escuto os sons desintegrados - das lembranças - alguns soluços e memórias apegadas em guardanapos" (p.13), em que se tem uma projeção atávica à casa da infância; 20, em que você é "didático" com a existência: "descrições dependem de sacrifícios - entre escolhas"21); como na observação realista do 21: "minha vida se resume em palavras repetidas - não há quem me escute - além do tempo: inexisto". Também "didático", ou seja, consciente do seu ofício, quando afirma "a rima facilita a introspecção" (23); todo o poema 25, 45, 50. O número 4 da parte que intitula o livro (p.52); o nº 10, 14, 20,21:"nenhuma vez avento - ser possível igualar minha vida - em intermediário - soar de alarmes: desdizer implica negar as vezes - em que me desfaço"; 22: "amo a inconsistência da chuva - no endurecer palavras?"(p.70); 26, 43, 44, 49, 60, 72.

Seu livro cafuca fundo na existência, na memória, na significância das palavras, e como sempre surpreende pelo inusitado de suas construções que tornam a poesia objeto de prazer e de reflexão. Abraço - Márcio Almeida

Tristeza, em leitura de W.J.Solha (no seu perfil do Facebook)

Finge a dor que deveras sente – está em pleno “spleen” ( “estado de tristeza pensativa ou melancolia associado ao poeta Charles Baudelaire” ). Isso se choca com a distante imagem que eu tinha dele no final dos anos 80, quando ele era o chefe do CESEC local, ali na Epitácio, e eu, integrante da diretoria do Sindicato dos Bancários. Num panfleto nosso, eu disse, uma vez, que ele nos era um mal tão necessário quanto o inspetor Javert pra bela história do Jean Valjean, n”Os Miseráveis”. Blablablá, fanfarronada, mas quando leio, agora, o TRISTEZA, penso no Javert se atirando ao Sena. Principalmente quando Du Bois cria a imagem riquíssima deste poema, de que ponho a primeira e a terceira estrofe:
-
Dentro da garrafa 
o navio naufraga
dentro do navio
o marujo se afoga
-
-
(as pessoas ) não suportam
a evidência de que o navio
na garrafa permanece
sobre a mesa.
-
Isso é coisa pra você ler de novo e parar pra pensar no que leu.
Tem a ver com o que ele diz sobre “O corpo preso em portões / ( que abertos não permitem / a saída / e o retorno )” . Ou seja: isto é um mundinho de que não temos escapatória. “Tantas vezes me reconheci em lápides” – ele acrescenta alhures. 
Há uma cena de “Fanny e Alexander” em que Bergman nos faz acompanhar uma senhora que sai de um ambiente da casa de classe alta, onde se prepara intensamente o natal, onde tudo é alegria, e, em seguida, a vemos chegar ao meio da sala vazia em que estamos, parar, e – distante de tudo aquilo - dar o mais dolorido suspiro ou gemido que já vi em toda a minha vida. Jamais me esqueci da carga deprimente dessa cena tão distante dos grandes dramas... E deixo com você estes dois versinhos que me parecem do mesmo calibre:
-
Não era pra ser 
assim: desconforto.