quarta-feira, 22 de março de 2017

NOMINAR

Anônimo
interpreta o papel
esquecido        fala sobre o corpo
     recolhido ao sussurro
: o nome pronunciado indica
a origem
o caminho
o medo
explicitado na oferenda
e o siso contornado
em alas abrandadas
onde vidraças estilhaçam
pontos de reconhecimento.

A cor expressada ao abrir
os olhos determina
o momento em que o nome
não assumido aflora paixões
e desperdícios atomizam
regras reescritas na conformidade
exigida pelo rito em que se entrechocam
nomes            alcunhas        e apelidos
singelos apostos na infância: infâmia
nominada em restrito chamamento.

(Pedro Du Bois, inédito)


segunda-feira, 20 de março de 2017

TERRAS

Na terra
a pedra
esculpida

na terra
a guerra
consumida

na terra
o olhar
terreno

na terra a ambição
do eixo imaginário

desterro o sonho
e o aprofundo
em cosmos equilibrados
                   sustentados
                   indissolúveis.

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 18 de março de 2017

EXAUSTO

Entrego verdades
ao lixo: catadas
em dias maldosos

não interessam luzes
barulhos
silêncios
murmúrios
palavras ao pé do olvido

encarcero a palavra feito
enfeite sobre as mesas
e a despojo ao solo
sob botas de dizeres

escuto o grito que me orienta
no não revelado: do cansaço
trago o desprezo dos dias acesos.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 16 de março de 2017

NOME

Ao me perguntarem o nome
penso o começo e digo pedro
mesmo não sendo pedro
o primeiro nome recebido

no nome escondido
em que se expõe
a dor do parto

como se comporta a angústia
compreendida na impotência
revestida na espera do nome
                       ainda não dito

inaudita a criança nasce
no tempo aproximado
em que o corpo
a expulsa

o nome não vem junto:
aposto no futuro instante
em que se integra ao ser
e o torna permanente.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 14 de março de 2017

CORPO

O abandonado corpo subsiste ao tempo
em partes decomposto pela ignorada vida
de sucessivos fracassos desentendidos

o arcabouço reflete os sentidos
opostos nos descobrimentos:

o tanto percebido ao sabor do vento
nas mãos do ladrão apoderado do fracasso

o corpo não descansa em insensata matéria
na limpeza crua da decomposição atávica.

(Pedro Du Bois, inédito)