quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

FRAGOR

No entrechoque
calam palavras
no fragor da luta

barulho do aço no grito de dor
estampido na bomba explodida
ar empestado em ordens obedecidas

a vida e a morte
soletram solertes
grunhidos: bichos
atolados em sangue
vampirizam chefetes impassíveis
                                  impessoais
                                  na impossibilidade
                                  de serem responsabilizados.

(Pedro Du Bois, inédito)


terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Academia Poética Brasileira

Poemas, apreciação crítica, em:

Academia Poética Brasileira

POETA CONVIDADO:
PEDRO DU BOIS
Balneário de Camboriú-SC
Nota do Editor:
A franqueza da escrita faz de Pedro Du Bois um poeta exuberante, desde quando li esses três trabalhos em "Arcanos Grávidos:Poemas", site interessante de Webston Moura, algo me chamou a atenção: a intimidade quase orgânica de Du Bois.
Algo que pouco leio nas entrelinhas de centenas de poesias que recebo no e-mail da APB: academiapoeticabr@gmail.com.
Eu sempre intitulo esse tipo de poesia ( e esse termo não é meu) de poesia interior com abundância de sentimentos íntimos, sem perder aquele viés característicos dos bons poetas: A terceirização da dor, do amor, da tragédia, do She e do We, levando um leitor ávido como eu a repensar: Os personagens de Pedro Du Bois estão amando ou simplesmente estão apaixonados? Aí vem a questão que dos seus versos emerge:
Poderiam esses versos com um manto quase mítico, ser uma tentativa de resgatar o 'amor romântico', relembrando o fatídico (ou quase) “Tristão e Isolda”? E se fosse? Óbvio que para um homem estudioso (ou seus personagens) e leitor assíduo pode ter sofrido influencia desse "fenômeno psicológico tão arrasador que esmagou nossa psique coletiva a ponto de alterar nossa visão do mundo?" (Da apresentação do livro WE).
Bom, na verdade esses versos ultrapassam a linha do comum:
"(...) Alugo o corpo ao personagem
e sou incorporado ao discurso plástico
da inverdade. Sou deus e demônio
personificados nas contradições. Besta
e pomba. Homem despossuído
de razões. A aparente calmaria antecede
a tormenta e a neve desce a montanha.
(...)".
Eis uma imagem contundente. A da dualidade muito bem questionada nestes versos primeiros. Porém, é explícita a terceirização dessa dualidade - Deus e o Demônio - não o autor, mas a situação em que é envolvido. Eis a diferença tênue nesses versos. Extraordinária diferença. Isso me enviou imediatamente a um livro que li há algum tempo do mestre Osho. Chama-se "A Ascensão do Ser Humano". Essa lembrança me trouxe a essa interpretação de Pedro Du Bois, no início de seus versos: " (...) O mal existe na sua interpretação,/ E não em si mesmo (...)". Eis a delicadeza da terceirização poética do autor ao compor esses versos acima. Perfeitamente entendido em "... alugo o corpo ao personagem/ e sou incorporado ao discurso plástico/ da inverdade (...)". É sem dúvida um grande poeta quem consegue traduzir em tão poucas linhas uma terceirização completa de autor/personagem.
Na parte dois que também compõe esta análise, vejo a tática poética de Pedro Du Bois intercalar-se com um enredo cênico com personagem e autor bem definidos. Desta vez, numa terceirização decodificada.
Ah! Podem até me chamar de louco. Mas nos versos desse tomo II (digo assim), há claras evidências de que o autor passeia de forma limpa e destemida por Jacob Levy Moreno (1889-1974), o criador da concepção de que podemos definir a alma humana através da ação. E a essa ação deu o nome de Psicodrama, isto é, na minha concepção pertinente aos versos lidos, uma maneira de investigar a alma humana pela ação.
"(...)
A luz ilumina o palco
com palavras
apostas no papel (..)".
Fica evidente a provocação poética da cena ao tentar socializar com um público aparentemente ilusório, no grande salão vermelho do teatro da vida. E quando ele escreve: "A aposta sobrevive ao instante/ da criação (...)", há uma apoteose analítica imensurável. Ora, esses versos atingem o clímax porque mexem com interpretações magníficas como as que permeias algumas teses levantadas por Freud (Justificação) e do matemático e filósofo francês Blaise Pascal, onde, ambos, mesmo sem expurgar a razoabilidade, decidiram admitir a existência de 'algo' que acaba por escapar tanto à verificação empírica quanto à dedução lógica. Eis o fenômeno embutido nesses dois versos de Du Bois.
E por fim, uma construção poética excepcional:
"(...) . O aplauso
contém o ressentimento
da realidade. (...)".
Fechando o tomo III, Du Bois nos fornece lenha para aumentar o fogo da consciência ou inconsciência coletiva. Como se a platéia humana reagisse ao mostrado no palco da própria inconsciência. E aí, cada leitor imaginaria qual peça lhe foi transferida do palco à sua consciência. Que leitura fazer ao final do espetáculo.
Contudo, há de se atentar para um fato nas entrelinhas de toda a composição poética. O palco da vida sempre impõe distância entre os protagonistas e a realidade. E isso, fatalmente, desperta fantasias e interpretações.
E quando o aplauso se enche de "ressentimentos da realidade", ecoa a inevitável fuga da realidade inerente às tentativas de amenizar nossas frustrações; diante de ilusório que agrada. Aí, volta Freud afirmando que sonhos e fantasias fazem parte do processos de avaliação de nossas angústias.
Eis a perfeição dos versos de Pedro Du Bois. Inteligentes. Instigantes. Provocadores. Dilacerantes, até, quando a luz do palco se volta para nós mesmos.
Mas eu vou seguindo a última estrofe de Du Bois e vou com ele:
"(...) Retorno/ e aprofundo/ a vida/ em verdades (...).
Com certeza, grande poeta, estou rasgando a terra dura para plantar sementes do meu amanhã.
Seja sempre bem-vindo. A casa é sua.
MHARIO LINCOLN
Editor-sênior da Revista Poética Brasileira
Presidente da Academia Poética Brasileira
www.revistapoeticabrasileira.com.br
Eis os versos completos.
(I)
Alugo o corpo ao personagem
e sou incorporado ao discurso plástico
da inverdade. Sou deus e demônio
personificados nas contradições. Besta
e pomba. Homem despossuído
de razões. A aparente calmaria antecede
a tormenta e a neve desce a montanha.
Sou outras gentes. Gentios
e crentes. A plateia estática na ação
do palco. O finalizar da música
no arrastar das cadeiras.
(II)
Ser além do personagem
o mito. História
em sua criação na apropriação
da ideia.
A luz ilumina o palco
com palavras
apostas no papel.
A aposta sobrevive ao instante
da criação. A aposta se conforma
ao espaço preenchido de oportunidades.
(III)
Repito o texto
realizo o gesto
materializo
a palavra.
Permaneço.
(IV)
Avesso ao comum
imortalizo
a cena. O aplauso
contém o ressentimento
da realidade.
Retorno
e aprofundo
a vida
em verdades.
Este trabalho poético integra o livro "Poemas", de Pedro Du Bois. Os poemas ora analisados, fazem parte da seção "Personagem". Leia mais o autor: http://pedrodubois.blogspot.com.br/.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

COLOCAÇÕES

No dia (detenção do tempo)
a manhã se apresenta desperta
em nuvens e pássaros alegóricos
(sensação da aurora)
a me dizer dos amanhãs
e do até logo
(consagração da hora)
após o dia findo.

Ao fundo a estrela guia
(constatação do equívoco)
desconstrói a estrada orvalhada
dos passos da partida
(ignorar o atrito)
na tristeza habitual
de se resumir em pouco caso
(destituição da memória).

(Pedro Du Bois, inédito)

sábado, 10 de dezembro de 2016

DITOS

Desdigo nomes
ausentes de significados

(branco espaço
 de preenchimento)

vago desconhecimentos
no me dizer ausente
ao entornar o cálice
e cortar o pão
              (inexistente)

(nome ressurgido
 na necessidade)

digo isso por aquilo
aquele por esta
outro por nada
em gestos desesperados

(grunho descobertas)

no significar o nome readquire
forças e me acompanha ao cadafalso
dos ditos (im)populares.

(Pedro Du Bois, inédito)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

ESTAR LÁ

Onde havia o riacho
correm ruas paralelas
de árvores substituídas
por verdes garagens

verde gasolina
em litros de passagens

cães inexistentes
se arremedam em borracharias
e lavagens de automóveis

(ser na árvores o fruto despercebido:
 a pera recolhida do galho alcançável)

refaço o trajeto levando em mãos
                 a lata de cerveja o pão
o hambúrguer o queijo derretido

o espaço em muros delimita
o futuro e o passado: passos
apressam o desnecessário.

(Pedro Du Bois, inédito)