terça-feira, 25 de outubro de 2016

FEITOS

do nada feito
do nada bem feito
do nada perfeito
do nada o conceito
abstrai a curva
do rio suspenso
em águas

a primavera retrai
o extremo alérgico
dos perfumes

do nada afeito
do nada desfeito
do nada refeito

(Pedro Du Bois, inédito)

domingo, 23 de outubro de 2016

REFLEXÕES SOBRE RODAS

Apesar do alagamento preconizado
no trânsito em ruas transbordadas
reconhece nos rostos preocupados
o pai de família atrasado para o trabalho
do assaltante imobilizado na entrega
pelo policial assoberbado nos motivos
do homem molhado na calçada

no passar da água em fúria
empoçada redobra a atenção
à música penetrada no corpo
distraído do mundo afirmado
sobre rodas imobilizadas

move o carro ao destino: a fila
afunila em busca da pista na hora
suspensa sobre o para-brisa
no significado conservado
pelo restante do caminho.

(Pedro Du Bois, inédito)

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

REPUBLICAR

Desliza a voz inaudível no discurso
inflamado de palavras ásperas ao tempo
imorredouro das lembranças escondidas
em interinos destaques de ações inábeis
nas mortes em ambos os lados

recebe aplausos sendo reconduzido
ao trono do desdouro: cassandras
apropriadas em termos mecânicos
de negócios em assombrados destinos

recoloca sobre a cabeça o cetro
que o faz presente no que avassala
a plateia na consagração inútil
dos espertos: o espectro andaluz
ressurge ao soar a música
na pregação da morte.

(Pedro Du Bois, inédito)

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

RAPINA

Na rapina
reconhece o corpo
consumido
na covardia
do fuso anti-horário
das ilusões menores

interessa o azedo da carcaça
na carne apodrecida do cadáver
pelo verme na passagem

a ave rapina o gesto
desossado do corpo aberto
ao sentir nauseabundo

alerta ao movimento inexistente
a carniça esvoaça a vida restante
em rememorações abstratas.

(Pedro Du Bois, inédito)