terça-feira, 19 de janeiro de 2010

TERRAS

Essa terra: longe alcanço
em vistas
é minha remessa:
desejo aventurado
ao transtorno.

Esta terra ao alcance
das mãos se desfaz
em gestos desmedidos: torpor
do corpo negado ao abraço.

A terra reside intransitável:

ódio
amor
indiferentes formas
de ser revisitada.

(Pedro Du Bois, DESNECESSIDADES REENTRÂNCIAS & ALGUNS REINGRESSOS)

domingo, 17 de janeiro de 2010

TRAJETO INVERSO

Hoje, casa fechada
irritação pelo momento
perdido

desconexo, o pensamento
não racionaliza
o feito, desfeita
a vida nada oferece

hoje, luzes apagadas
irritação e o tormento
encontrados

desconexo, carrega a roupa
sobre o braço, o paletó
do terno, terna
maneira de não amassar
o casaco

hoje, porta trancada.

(Pedro Du Bois, TRAJETO INVERSO)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

HORA

Não escreva
quando a hora
for essa:

cachorros ganindo
pios de corujas
barulho de carros
passando ao longe

cessam as histórias
palavras são recolhidas
começam as orações: crentes
corações despedaçados

não aumente suas angústias
nem os gritos dos animais
em palavras que se bastam.

(Pedro Du Bois, OS CÃES QUE LATEM)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

RECORDAÇÕES

...
revive o passado em sorrisos e risos
não o destrói nem o reconstrói na forma exata
como os dias menores de implicâncias
e sortilégios arremetidos sobre as árvores
contidas em doces frutos apetecidos

lições distribuídas entre as cadeiras
no sentido inato das organizações e métodos
do não seguimento de nenhuma carreira
que possa transmitir a sensação
do que volta aos bancos escolares
...

(Pedro Du Bois, POETA em OBRAS, Vol. VII, fragmento)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O POETA E AS PALAVRAS

Ao poeta cabe o privilégio
da musa
ardendo
sobre o papel
na ânsia
com que o inverso
se apresenta

mero espetáculo
onde o poeta
guarda a sua graça

o poeta se guarda
ao átimo
do passar da musa
em caminhos diversos

mero instante
em que se inquieta
o poeta.

(Pedro Du Bois, O POETA E AS PALAVRAS)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

ADERALDOS

digo ver
aderaldo cego
como lembra
o que nunca viu
mas sabe das cores
nuances e detalhes
da visão perdida
aderaldo cego
no que digo ver
o pássaro sobre a árvore
enluvada mão sobre o ombro
o rosto da mulher contra o vidro
aderaldo cego
cantor da saudade e da terra
no que não viu nem lembra
e sabe o matiz e mete o nariz
cheiros da terra trazem a paisagem
fechada no escuro do que não vê
aderaldo cego
que me vê no que digo
e sabe da minha face.

(Pedro Du Bois, (A)MOSTRA)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

EXÍLIO

Busca
na ânsia
do exílio
o desencontro
e o regaço feliz
de uma mulher

de palavras tristes e entonações baixas
com que os espíritos são trazidos de volta

a matéria cristalizada em pedra
renega a fluidez do início e o exílio
fechada porta do quarto de dormir.

(Pedro Du Bois, SEMPRE MULHER)